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Viaje sem sair de casa: o vinho rosé

27/04/2020

Por Mauro Marcelo Alves*. Especial para a Teresa Perez.

Se há um paraíso rosé na Terra, ele se chama Provence. A bela região do Sul da França, famosa pelo clima radiante e o glamour em suas praias e petites villages, guarda em suas colinas mediterrâneas os segredos para fazer o melhor vinho rosé.

Benção dos deuses? Pode ser: ele é o vinho mais antigo do mundo e os gregos, ao plantar pés de uvas na região 2.600 anos antes de Cristo, pareciam imaginar isso. Hoje, o rosé é feito em vários países e tem um consumo crescente, atraindo pela simpatia dos aromas frutados e seu frescor.

Os vinhedos da Provence produzem as uvas de alguns do mais prestigiados vinhos rosé do planeta

Na antiguidade, os vinhos tinham tonalidade clara, rosada, porque a fermentação do suco de uva escura durava pouco tempo junto com a casca, a responsável pela cor do vinho. Não se conhecia ainda todo o processo mais longo de maceração que levaria o líquido a se tornar tinto – por isso, não é possível elaborar rosé com uvas brancas. Muito suave, era comum ser aromatizado com ervas e especiarias para ter um gosto melhor e permitir conservação maior.

O método primitivo pouco mudou ao longo do tempo, com o suco das uvas tintas indo para os tanques de fermentação junto com as cascas, que são retiradas depois de algumas horas à medida que seus pigmentos transmitem a cor desejada pelo enólogo. Terminada a fermentação, o tempo de repouso do rosé nas caves é bem menor do que o do vinho tinto – é para garantir sua principal característica, o sabor fresco e frutado. Mesmo o que não o apreciam inteiramente sabem que tudo depende do momento: eles podem ser encantadores à beira da piscina e na praia, como aperitivo, ou acompanhando canapés, frios, frutos do mar e peixes grelhados. Um detalhe muito importante: devem ser bebidos jovens, das safras mais recentes possíveis. São vinhos delicados, frágeis, que sofrem com a exposição à luz e locais quentes.

Terminada a fermentação, o tempo de repouso do rosé nas caves é bem menor do que o do vinho tinto – é para garantir sua principal característica, o sabor fresco e frutado.

Os de maior sucesso são mesmo aqueles feitos na Provence, com um clima e solos perfeitos para este tipo de vinho. As cores são lindas, salmonadas, e exibem aromas insinuantes de frutas vermelhas ou de flores e gostosa acidez. Outros países europeus também elaboram bons rosés, como Itália, Espanha e Portugal, mas nenhum supera a França tanto em produção quanto consumo. Ela é responsável por 31% da produção mundial e 35% do consumo planetário, seguida nas taças bebidas pelos Estados Unidos (14%), Alemanha (8%) e Grã-Bretanha (6%). Impressiona também saber que outros países têm conhecido um forte aumento no consumo dessa bebida nos últimos 15 anos, como a Suécia (+750%), Canadá (+120%) ou Hong-Kong (+250%).

Mas, com seus números, a França se destaca totalmente como destino preferido para quem aprecia ou quer descobrir este vinho solar, capaz de alegrar qualquer viagem. Praticamente não há um só bar ou restaurante no país onde não esteja em sua tradicional garrafa branca exibindo a cor atraente. E em seu paraíso particular, a Provence, a rota dos vinhos ziguezagueia por caminhos plenos de beleza e charme, com mais de 400 vinícolas recebendo os turistas. Entre seus destaques está o Château Roubine, próximo à montanha Sainte-Victoire celebrada nos quadros de Cézanne, que promove degustações de vinhos durante todo o ano e, além disso, permite hospedagem no Mas des Candeliers, situado no meio dos vinhedos e oferecendo várias atividades ligadas ao enoturismo e gastronomia.

Muitos châteaux na Provence produzem seus próprios rosé - alguns premiados mundialmente

O belo Château Sainte Roséline, situado em Les Arcs sur Argens, recebe cerca de 30 mil visitantes por ano para conhecer suas caves, capela, claustro, parque com exposições de arte contemporânea e, naturalmente, degustar os vinhos, metade da produção em rosé. E para quem cultua arte, uma visita que se pode dizer obrigatória na Provence é ao Château La Coste, perto da belíssima Aix-en-Provence, com uma impressionante coleção de esculturas, instalações, prédios e quadros de artistas contemporâneos de prestígio mundial. Tudo cercado por bosques e pelos vinhedos de onde são produzidos ótimos vinhos, sobretudo rosés, que podem ser experimentados no café ou no restaurante.

Nestes châteaux especiais ou onde houver uma taça de rosé em mesas informais ou chiques, certamente se ouvirá um provérbio justamente provençal anunciando que “um dia sem vinho é como um dia sem sol”.

 

* Mauro Marcelo Alves é jornalista apaixonado pela França, onde morou, e em particular sua cultura gastronômica. Colaborador da revista The Traveller, é autor de “Vinhos, A Arte da França”, foi diretor de GULA e do Guia 4 Rodas.

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