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O primeiro barco-hotel sustentável da Amazônia

12/02/2020

Por Xavier Bartaburu*. Especial para a The Traveller

Pense num quarto de hotel com uma tevê de 200 polegadas. Imagine que, nessa tevê, a programação é sempre transmitida ao vivo, ligada nos acontecimentos da natureza, do nascer ao pôr do sol. Você está deitado na sua cama e, opa, um boto põe a cabeça para fora da água. Ou um casal de gaviões atravessa a tela para pousar no galho de uma sumaúma semisubmersa. A paisagem também nunca é a mesma: se move e se transforma, como em panorâmica, proporcionando a cada segundo novas visões da água e da mata. Não dá para mudar de canal, mas pode-se sair do quarto e contemplar esse espetáculo em tela expandida, versão Imax - com a diferença de que, aqui, quem está dentro do filme é você.

Entardecer no Rio Negro. Foto: Xavier Bartaburu

Importante dizer: em um cruzeiro pelo Rio Negro, a natureza é muito mais do que um quarto com vista. Está lá fora, separada pelo vidro da janela, mas também no interior do barco, embutida nos mais invisíveis detalhes, inclusive ajudando-o a navegar Amazônia adentro. Trata-se do Untamed Amazon, o primeiro barco-hotel sustentável da grande floresta, uma nave de 300 toneladas movida a energia solar, isenta de plástico a bordo (usam-se garrafas térmicas reutilizáveis) e munida de um sistema de tratamento de água que se abastece do próprio rio. Rodrigo Salles, CEO da empresa responsável pelo Untamed Amazon, explica que a água do Rio Negro passa por cinco etapas de filtragem até se tornar potável. Na prática, ele diz, “toda a água que sai das torneiras e dos chuveiros pode ser bebida”. Essa água é usada para tudo a bordo, do preparo da comida à descarga dos banheiros, e depois devolvida ao rio livre de resíduos, fechando o ciclo de sustentabilidade.

No teto da embarcação, 96 painéis solares absorvem o brilho do sol. Em tese, 100% da energia elétrica usada na navegação é de fonte solar, mas há também dois geradores de apoio, ligados à noite e em dias nublados para garantir que as luzes a bordo nunca se apaguem - e, sobretudo, o ar condicionado jamais deixe de aliviar o sempre presente calor amazônico. Mais que um barco-hotel, é um hotel-boutique flutuante. São apenas oito suítes - seis delas com janelas panorâmicas (e com vidro espelhado, para que o interior não seja visto do lado de fora) e duas na proa, com sacada privativa. Nada mais que dezesseis hóspedes embarcados, portanto, que desfrutam de massagista a bordo, um lounge com duas jacuzzis, drinques à vontade e um chef exclusivo que a cada refeição se encarrega de fazer o melhor uso dos ingredientes amazônicos. Seu nome é Fabricio Guerreiro, manauara de nascimento que, depois de estudar e trabalhar na Europa, voltou à Amazônia com a missão de aplicar as técnicas da alta gastronomia aos produtos da floresta natal.

Em suas mãos, o tacacá pode vir transformado num risoto e o pirarucu na forma de um carpaccio. Peixes amazônicos, aliás, são soberanos no cardápio: aruanã, tucunaré, tambaqui, matrinxã, cada um se apresenta nas mais diversas formas, não raro acompanhados de ingredientes como banana-pacovã, farinha de Uarini, formigas saúva (isso mesmo) ou uma mistura de pimentas selvagens colhidas pelos indígenas baniwa. Nas sobremesas, conte com a presença do cumaru, semente aromática que vem ganhando prestígio como uma espécie de “baunilha da Amazônia”. Fabricio adianta que a tendência é que a gastronomia ganhe cada vez mais protagonismo na navegação: no lounge, surgirá em breve uma cozinha aberta, bem maior que a atual, espaço livre de criação para que o chef alce novos voos. Como ele diz, “vou tentar aqui a primeira estrela Michelin”. Enquanto isso, os hóspedes podem desfrutar de uma experiência que não tem nada de gourmet, mas que será certamente inesquecível: participar de um moquém em uma aldeia indígena.

A aldeia em questão é a Utãpinopona, à beira do Rio Negro, habitada pelos tuyuka. O local é frequentemente visitado por grupos turísticos, que assistem a apresentações de rituais tradicionais, mas apenas os hóspedes do Untamed Amazon têm o privilégio de provar um almoço feito à maneira indígena - peixes e legumes defumados sobre a grelha que chamam de moquém -, preparados com o toque do chef Fabricio. Impressionante o que apenas fumaça e sal podem fazer com o sabor de um tambaqui. A visita aos tuyuka é um dos passeios incluídos nos cruzeiros que partem de Manaus de março a julho. No resto do ano, o barco se muda para o extremo noroeste do Amazonas, onde recebe pescadores esportivos ansiosos para fisgar os gigantes amazônicos que habitam as águas selvagens do Rio Marié. Se pesca não é sua praia (mas peixes saborosos sim), basta escolher um dos cinco cruzeiros que saem da capital amazonense entre março e julho, com duração de 2 a 6 dias. Todos sobem o Rio Negro; o que muda é a distância. Os mais longos passam pelo arquipélago fluvial de Anavilhanas e avançam rio adentro, rumo às cachoeiras do Rio Apuaú e a comunidades ribeirinhas mais isoladas. O melhor da Amazônia no mais sustentável de seus barcos - e você no meio de tudo isso. Como num filme.

Quando ir
março a julho

Como ir
A Latam Airlines mantém voos diários para Manaus a partir do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, e de diversas capitais brasileiras, como Fortaleza, Salvador e Brasília nos modernos Airbus.

Como explorar
O primeiro barco sustentável a navegar na Amazônia tem roteiros de 2 a 6 dias pela região. O cruzeiro clássico, de 4 dias, chamado Tukano, tem um pouco de tudo: o encontro das águas dos rios Negro e Solimões, uma interação com botos-cor- -de-rosa, uma visita aos índios tuyuka, navegação por igapós e igarapés, trilhas na floresta e pesca de piranhas.

Onde ficar
Hotel Villa Amazônia

Localizado no centro histórico de Manaus, ao lado do Teatro Amazonas - ponto que é ideal para explorar o melhor da cidade -, o Villa Amazônia aproveita o espaço de um edifício remanescente dos tempos áureos da borracha, hoje totalmente renovado. Os apartamentos têm design contemporâneo e o Bistrô Fitz Carraldo é perfeito para experimentar o exotismo da culinária amazônica e clássicos internacionais.

 

*Xavier Bartaburu é jornalista, fotógrafo e viajante com o mesmo tempo de estrada e de profissão, documenta povos e lugares do mundo há quase duas décadas. O resultado de seu trabalho encontra-se publicado em mais de 20 livros. Ele embarcou em um cruzeiro na Amazônia e faz um relato da aventura na 94ª edição da revista The Traveller. 

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