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Viaje Sem Sair de Casa: Páscoa na Etiópia

02/04/2020

Este é um momento para cuidarmos um do outro, para estarmos com a família e aquietarmos a mente. Para viajar, nem sempre precisamos sair de casa. No projeto Viaje Sem Sair de Casa, reunimos conteúdos superbacanas para você aproveitar com a família. Que tal conhecer o que cada destino tem de mais interessante? Da gastronomia a dicas de filmes e livros - tudo o que você precisa pra curtir um pedacinho do mundo na sua própria casa e conhecer outros lugares sob novas perspectivas. Boa viagem!

Onde a fé talha montanhas
A Etiópia foi uma das primeiras nações do mundo a abraçar oficialmente a fé cristã. Isso aconteceu em cerca de 300 d.C., provavelmente por influência da pregação do apóstolo São Mateus - um dos muitos personagens históricos que, de acordo com as lendas deste país profundamente místico, teriam passado por ali. Outra figura é São Jorge, o santo guerreiro, patrono da Etiópia, que teria supervisionado pessoalmente a construção de algumas das igrejas monolíticas de Lalibela - um verdadeiro prodígio arquitetônico. São 11 igrejas talhadas diretamente na rocha, numa região montanhosa a cerca de 2.500 metros de altitude.

No entanto, o lugar mais sagrado para os etíopes é Axum, uma das cidades mais antigas do mundo. Capital de um importante reino no passado, Axum foi sede do palácio da Rainha de Sabá e, pelo que reza a lenda, o lugar onde está guardada a sete chaves a Arca da Aliança, com os Dez Mandamentos de Moisés. Precisamente na Igreja de Santa Maria de Sião, a mais importante para a Igreja Ortodoxa Etíope - a vertente cristã majoritária por ali. São tantos os milênios de História acumulados na Etiópia que também é possível conhecer como era o país antes dos cristãos. Para isso, é preciso ir ao Vale do Omo, no sul, onde vivem tribos como os mursi e os hamar, pastores cuja fé é inteiramente devotada aos espíritos da natureza.

A Igreja de São Jorge: escavada diretamente na pedra na cidade de Lalibela

As emocionantes celebrações da Páscoa
Por Erik Sadao

Os cantos e as orações entoadas em g’her, a língua ancestral semítica utilizada nos ritos religiosos dos cristãos da Etiópia, começam a parecer familiares. Me dou conta de que estou em contato com uma língua diretamente ligada ao aramaico, falado por Cristo e seus apóstolos. Talvez seja a vibração das centenas de pessoas que encerram o severo jejum de 56 dias, que terminará em poucas horas. Há uma alegria no ar que contrasta com a seriedade da leitura da bíblia revezada por muitos padres durante todo o dia que antecede a Páscoa. Estou instalado no alto de uma pedra com vista privilegiada para a incrível Igreja Bet Maryam, a maior das 11 igrejas talhadas diretamente na  pedra que formam o complexo de Lalibela, acompanhando o primeiro grupo de brasileiros da Teresa Perez Tours que presencia a comemoração.

Um dos marcos cristãos na Etiópia, ela é uma das imagens mais conhecidas do país

Olho para os lados para ver se estão todos bem e fico feliz ao notar que estão encantados com o espetáculo. Nosso guia tira da mochila as singelas velas de fio de mel que os fiéis utilizam para celebrar o momento do renascimento de Cristo e começamos a entregá-las a cada um, e eles nos agradecem com olhares cheios de respeito e de ternura. De repente, palmas começam a ser puxadas e percebemos, logo abaixo, a comunhão entre os presentes acontecendo no momento em que todos acendem suas velas. De onde estamos, fazemos o mesmo. As tonalidades das pedras, extremamente fotogênicas durante o dia, começam a adquirir variações de dourado. A impressão geral é de que o cenário se ampliou. Tambores e gritos, que remetem a celebrações tribais, começam a ser ouvidos, e ninguém consegue tirar os olhos do que está acontecendo quando os sons se tornam orquestrados com chocalhos.

A celebração da Páscoa é o evento mais importante do calendário cristão no país

Fixo meu olhar em um padre que abraça seus fiéis. Seu sorriso não revela que ele esteve prostrado no lugar durante as últimas 12 horas consumindo somente algumas doses de água. Alguém me cutuca oferecendo a chama da vela que chegou ali em cima e, assim que acendo a minha, começo a distribuir o fogo para o restante do grupo que, agora, me responde com um olhar de cumplicidade daqueles que só os que vivem grandes experiências juntos conseguem trocar. Um grande amigo que me acompanhou em uma recente viagem pela Índia sempre menciona a “efervescência coletiva”, que é capaz de nos levar ao transe a partir do contato com cantos e ritos realizados por grandes multidões, como acontece em grandes festas e shows. Ao notar os sorrisos e abraços que o grupo começa a trocar entre si em agradecimento ao privilégio de ter vivenciado dias incríveis, fico ainda mais feliz. Na Etiópia, um país que independentemente da experiência em viagens, não prepara o visitante para o que irá encontrar, me sinto, também, um privilegiado por ser o anfitrião dessa jornada, e por viver, junto com este seleto grupo de viajantes, a efervescência da Páscoa etíope.

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