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Viaje Sem Sair de Casa: a fé na Islândia

01/04/2020

Este é um momento para cuidarmos um do outro, para estarmos com a família e aquietarmos a mente. Para viajar, nem sempre precisamos sair de casa. No projeto Viaje Sem Sair de Casa, reunimos conteúdos superbacanas para você aproveitar com a família. Que tal conhecer o que cada destino tem de mais interessante? Da gastronomia a dicas de filmes e livros - tudo o que você precisa pra curtir um pedacinho do mundo na sua própria casa e conhecer outros lugares sob novas perspectivas. Boa viagem!

 

A fé em si
Isolada no extremo e gelado norte do mundo, a ilha que serve de território à Islândia é uma terra de povo resoluto e trabalhador, talhado pelas intempéries para a sobrevivência em ambiente inóspito, ainda que belíssimo. Praticamente todos ali descendem dos vikings, os primeiros povoadores da ilha. Eles já não são mais os bárbaros que saíam pilhando os portos do mundo – pelo contrário, são incrivelmente acolhedores –, mas a cultura viking de algum modo ainda permanece viva entre eles. Um exemplo é a crença dos islandeses em elfos – criaturas da mitologia nórdica por aqui chamadas de “povo escondido”. Mais da metade da população acredita que eles existem. E são comuns, pela ilha, as pequenas casas construídas para eles nas montanhas.

Se há um povo que crê firmemente na capacidade humana de sobreviver aos mais duros desafios, este é o islandês. (Foto Jay Mantri / Pixabay)

Oficialmente, a vasta maioria dos islandeses pratica o luteranismo, o ramo da igreja protestante que é predominante nos países nórdicos. Mas, na prática, será raro ver um islandês indo regularmente à igreja. A Islândia é um dos países com maior proporção no mundo de pessoas que não acreditam em Deus: cerca de 20%.

E no que acreditam os islandeses (além de em elfos)? Em si mesmos. Se há um povo que crê firmemente na capacidade humana de sobreviver aos mais duros desafios, este é o islandês. Desde cedo, ainda adolescentes, os habitantes são estimulados a trabalhar. Com isso, ao longo da vida, ganham uma autoconfiança capaz de superar a mais longa das noites de inverno na ilha. Afinal, seria muito difícil viver num lugar tão isolado sem acreditar em alguma força maior. Venha ela de Deus, dos elfos ou de si mesmo.

Os cenários da Islândia são épicos, com geleiras, vulcões e fiordes e às vezes inóspitos. O que faz aumentar a sensção de isolamento do seu povo

A aurora boreal na Islândia

Por Daniel Nunes Gonçalves. Especial para a Teresa Perez.

A primeira aurora boreal a gente nunca esquece. Realizei este sonho antigo em um despretensioso mês de setembro justamente na Islândia, país pelo qual eu tinha ficado perdidamente apaixonado em uma jornada feita, quatro anos antes, para satisfazer outro prazer viageiro: o de assistir ao sol da meia-noite. A Islândia arrebata viajantes do mundo todo com auroras psicodélicas no inverno, dias sem fim no verão, gêiseres e glaciares o ano todo. Não é só: a cada quatro ou cinco anos, vulcões ativos despertam e cospem fumaça, fogo e lava em algumas das paisagens mais sedutoras do planeta para quem ama natureza em estado bruto.

Era o terceiro dia de uma viagem de uma semana desenhada pelo staff da Teresa Perez Tours, e seria minha primeira noite fora da simpática capital Reykjavík. Durante o jantar no hotel Rangá, a 1h30 da capital, nossa conversa de amigos foi interrompida por gritos. Não deu tempo de questionar se era incêndio: em instantes, estávamos todos lá fora olhando para o céu e vibrando. Northern Lights! As luzes do Norte! Era isso que as pessoas gritavam, e era essa maravilha que se movia magicamente sob nossas cabeças. Luzes brancas, roxas e verdes faziam a primeira aparição no céu islandês naquele início de temporada fria.

Não canso de recontar a experiência. A aurora é um fenômeno tão raro que você se sente em um momento de suspensão do tempo. São instantes de uma beleza sublime, em que todos se concentram em um aqui-e-agora eterno. Formas inusitadas – de semicírculos, de asas, de espinhas de peixe – surgem em um ponto do céu e se movem, rápidas como estrelas cadentes, para o outro lado do firmamento. Absortos pela cena ímpar, alternamos entre silêncio, lágrimas, suspiros e abraços de felicidade compartilhada. Parecia até noite de réveillon.

A aurora boreal no país também carrega ares místicos, em um dos mais espetaculares fenômenos da natureza

Para minha sorte, a Islândia é um dos primeiros pontos do planeta em que as auroras boreais costumam ser vistas a cada ano. Elas ocorrem justamente a partir do inicio de setembro, se estendendo até abril. Be-a-bá rápido: estes fenômenos ópticos são avistáveis apenas nas proximidades do Círculo Polar Ártico, à noite e longe das luzes urbanas. São causados pelo encontro veloz de elétrons provenientes de ventos solares com elementos da atmosfera terrestre canalizados pelo campo magnético das altas latitudes. Do choque dessas moléculas surgem os chamados fotões, sempre luminosos, fugazes e coloridos.

A beleza é tanta que deu origem a grupos de viajantes caçadores de auroras. Eles viajam no conforto de cruzeiros com guias astrônomos na Noruega, se aventuram em trenós puxados por huskies siberianos na Groenlândia, praticam snowmobile nos rincões do Canadá, dormem em iglus com teto de vidro na Lapônia finlandesa etc. O diferencial de ver uma aurora na Islândia, na minha suspeita opinião, está em tudo o que se pode fazer além de viver o êxtase boreal.

 

*Daniel Nunes Gonçalves é jornalista e escritor.

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