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Sky safari para ver o Quênia do alto

04/09/2019

Texto por Caio Vilela*
Imagens por Bruno Bierrenbach Feder**

Especial para a The Traveller

São nove horas da manhã do primeiro dia de safári. Acompanhada de pais e avós maternos, uma senhorita francesa de oito anos de idade comenta durante o café sobre o que presenciou durante a alvorada: babuínos ruidosos, girafas silenciosas e filhotes de elefantes brincando na relva. Conduzido pelo guia local Mohamed, o primeiro giro sobre a savana do Quênia, cabelos ao vento em um Land Rover sem capota, deixou todos a bordo boquiabertos. Apenas um aperitivo do que se pode esperar do programa clássico de safári no coração dos 870 quilômetros quadrados do Parque Nacional Meru.

Primeira Impressão
Viver momentos rodeados daquelas imagens que só se vê nos programas de televisão não tem preço. O safári está no imaginário coletivo e resgata memórias de infância, com informações que absorvemos de filmes de Hollywood ou pela literatura infantojuvenil. Não é à toa que o sonho de fazer esta clássica (e confortável) aventura motorizada movimenta o maior volume do fluxo de visitação internacional no continente africano desde sempre, gerando grande fascínio a casais, famílias, grupos de amigos, netos e avós com espírito aventureiro. 

O pequeno grupo desembarca na estreita pista de terra após duas horas em um Cessna Grand Caravan com nove assentos. No mesmo voo, um casal de brasileiros e outros dois casais bávaros nos seus 60 anos. O trajeto até o lodge marca a primeira impressão da viagem: ar puro e seco, silêncio de poucas aves e nuvens que alcançam o horizonte. A visão de quatro zebras sob a sombra de uma árvore quebra a monotonia da paisagem árida. Ao chegar no lodge, o staff simpático revisa o programa de cada hóspede: planeja momentos especiais com jantares aoar livre, degustação de vinhos e passeios pela savana, tudo cercado por uma atmosfera de muita exclusividade e privacidade. O Elsa’s Kopje, um dos lodges da rede Elewana Collection onde nos hospedamos no país, fica próximo ao local de acampamento do explorador britânico George Adamson, ícone da preservação da natureza no Quênia. Muito antes de conservação ambiental virar pauta mundial, George já protegia e reintegrava leões órfãos à natureza. Sua história de vida rendeu livros, um documentário, e o premiado longa Born Free, sucesso dos cinemas em 1966. Hoje sua imagem inspira ecologistas do mundo todo.

No dia seguinte, cada um dos recém-chegados embarca em um jipe diferente. Na despedida, a pequena Sophie nos deixa a dica para o primeiro passeio: “fale baixinho
e vista-se discreto se quiser ver os animais sem assustá-los”, diz a menina, repetindo as palavras do guia Mohamed, e provocando sua imediata risada.

Sob sol ameno, rodamos pelo descampado sem fim, característico do suave relevo interrompido apenas pela visão distante do monte Quênia, o segundo ponto mais alto do continente africano, atrás apenas do monte Kilimanjaro. Elefantes, girafas, zebras,
impalas, hienas e antílopes em geral são vistos com facilidade no primeiro tour.

Reencontramos a família francesa com os olhos arregalados em um ocasional encontro de jipes próximo a um grupo de elefantes. Mohamed descreve os hábitos dos animais com muito conhecimento. Sabe onde procurá-los, o que fazem em cada
momento do dia, e onde deverão estar de noite. Aqui quase não se fala em ver os big five, os cinco animais mais difíceis de se caçar a pé, segundo a tradição do parque sul africano Kruger. Prêmio máximo para quem faz safári na África do Sul, avistar em um dia búfalos, leões, rinocerontes, leopardos e elefantes não é tarefa tão fácil no Quênia. No Parque Nacional Meru, o desafio é encontrar rinocerontes, vítimas constantes da matança ilegal que ocorre na calada da noite para extrair seu chifre, comercializado por preços altos no mercado negro. Nosso tour continua ilustrado pela abundante vida selvagem até o retorno ao lodge, onde o jantar é servido à luz de velas. Na madrugada, o ar seco impede o orvalho de se depositar sobre as folhas. Duas noites bem dormidas acontecem em uma sofisticada tenda com deck-observatório equipado com lunetas apontadas para a savana.

Encontro com o rei
A bordo do Cessna, seguimos para a Área de Conservação de Loisaba, na região de Laikipia, norte do Quênia. E esse é um dos destaques do sky safari – a chance
de se deslocar de lodge em lodge pelos ares, vivenciando os dramáticos cenários do país por uma outra perspectiva. No safári, o dia começa às cinco e meia da manhã. A caminho de um descampado, não se vê nenhum bicho ao atravessar o primeiro trecho de savana. De repente, a presença dos animais é pressentida por todos apenas pelo olfato. O cheiro da mata seca se mistura com o forte odor das feras que há pouco deixaram pegadas onde estamos. Nosso guia observa a direção das patas marcadas na areia e arranhões em árvores, feitos por elefantes, enquanto transitam silenciosos pela região. 

Após 15 minutos de suspense, nos deparamos com um grupo de 11 leões deitados sob a sombra de uma árvore. Preguiçosos, especialmente os machos, dormem durante o dia inteiro e pouco se importam com o ruído do veículo. Os reis da selva caçam apenas duas ou três vezes por semana, sempre à noite, em ataques coletivos. Na verdade, quem caça são as rainhas. Nas investidas, sempre lideradas pelas fêmeas mais encorpadas do bando, elas fazem o mais difícil: armam emboscadas e capturam presas correndo em velocidade desesperada. Em geral antílopes, zebras ou mesmo um filhote de elefante. Uma vez que a presa cai no chão, os machos aparecem para completar o abate com a força trituradora de suas mandíbulas.

Nosso guia diz desconfiar onde o bando pernoitou na noite anterior. E afirma com entusiasmo e convicção: há meses ele acompanha os hábitos alimentares desta e das outras famílias de leões que dividem o território em Loisaba. 

Seu palpite foi certeiro. Naquela mesma noite voltamos ao local e encontramos as leoas em um momento de concentração, na espreita de um grupo de antílopes. A noite clara, com a lua quase cheia, distribui generosa luz prateada que favorece a visão e a fuga. A presas conseguem enxergar as leoas, se esquivam e desaparecem num piscar. De repente, uma nuvem densa encobre a lua. A escuridão toma conta da savana, apavorando os bichos que enxergam mal no escuro. As presas entram em estado de alerta, e correm desorientadas, sem muita convicção de estar na direção certa. É nesse momento que a maior das fêmeas aparece de surpresa por detrás de um arbusto, em um salto certeiro sobre o pescoço de um jovem antílope macho. No minuto seguinte, outra leoa adulta já se encontra sobre o animal indefeso, enquanto todos os outros antílopes desaparecem savana adentro. Boquiabertos, visitantes e guias acompanham o procedimento todo da caçada por mais de uma hora em silêncio absoluto. De volta ao hotel, a cena é absorvida gradualmente pelos visitantes, que discutem detalhes da caçada emocionante e dolorosa durante o café da manhã.

Funcionalidade e charme marcam o estilo do interior dos apartamentos no lodge de Loisaba. Espalhados por uma área verde, verdadeiros refúgios de aconchego e segurança são separados por uma passarela sutilmente iluminada, que afasta suas entradas propiciando privacidade e silêncio. No interior, o ambiente pode ser regulado com todas as variantes de luz e temperatura. Ar condicionado, luminárias estratégicas
e cortinas garantem o conforto interno, enquanto terraços ao ar livre convidam a curtir a noite ao sabor da brisa suave. Os dias seguem como em um filme de ação: cães selvagens, agressivos e temidos, repousam junto a um filete de água, onde ocasionalmente uma família de elefantes aparece para sorver algumas centenas de litros. 

A terceira parada acontece na famosa Reserva Masai Mara, onde a planície é pontuada com acácias que abrigam solitários leopardos. Talvez o cenário do maior dos clichês africanos, a terra do povo Masai é o principal destino turístico do país. Mas o primeiro minuto por aqui faz jus à imagem: palco da épica migração de gnus, antílopes, zebras e
outros mamíferos, que transitam anualmente entre essa reserva e o Parque Nacional de Serengeti, na Tanzânia, o Masai Mara compreende não apenas a famosa savana repleta de animais, mas também centros comunitários, fazendas coletivas e aldeias do povo Masai, para muitos o ponto alto da aventura no Quênia. 

À margem do rio Sand, o Sand River Tented Camp fica na região da fronteira entre os dois países. Próximo ao acampamento, uma chita faz alongamento e segue em silêncio ao lado de um grupo de zebras distraídas, em uma dança delicada durante horas sob a luz dourada do ocaso. O episódio não foi possível assistir até o final, embora tenha sido fácil presumir o epílogo feliz para a chita. Outra visão que impressiona os inexperientes visitantes. Cada viagem nunca será igual à outra, a bordo de um jipe bem pilotado. “Isso é o que faz as pessoas voltarem” – diz com orgulho a inglesa Debbie Partridge que, junto com seu marido Chris Wood, gerencia o tented camp da Elewana Collection. Essas memórias ficam marcadas para sempre. Tão fortes quanto aquelas plantadas pelos livros e pelo cinema durante a infância. E apimentadas com uma considerável dose de realidade.

Como explorar
O sky safari é uma maneira incrível de conhecer várias regiões do país em uma mesma viagem, voando de lodge em lodge a bordo de aviões de nove lugares em classe executiva, com serviços personalizados. Há várias opções de roteiros a partir de sete noites de estadia com destino às principais reservas naturais do Quênia.

Onde ficar

Elewana Collection
A rede Elewana conta com nove lodges, camps e hotéis instalados no Quênia, que proporcionam oportunidades excepcionais de observação da vida selvagem com localização perfeita, confortos e design contemporâneos, sem deixar de lado as influências locais. Entre os highlights, está o cuidado com a conservação do meio ambiente, a atenção às ações sociais e a grande diversidade de estilos de safáris disponível para os hóspedes.

* Caio Vilela é fotógrafo e jornalista paulistano. Produz reportagens em revistas e jornais nacionais e estrangeiros desde 1994, tendo sido publicado em mais de cem países.

** Bruno Bierrenbach Feder é fotógrafo documental e fundador da Cross Geographic. Já teve suas imagens publicadas em veículos como The Guardian, Vogue, Harpers Bazaar, BBC e O Estado de São Paulo.


 

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