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Lapônia: o inverno é a estação mais quente

12/09/2019

Auroras boreais, trenós puxados por huskies, quartos de gelo e outras experiências que fazem da congelante virada do ano na Finlândia bem mais que uma visita ao Papai Noel. Por Erik Sadao*. Especial para a The Traveller


Povo mais feliz do mundo segundo estudo da Organização das Nações Unidas em 2018, a Finlândia tem índices de desenvolvimento humano tão impressionantes que proporciona uma viagem quase “exótica” para quem desembarca com referências de um país em desenvolvimento. Que o merecido reconhecimento pela qualidade de vida não ofusque, porém, seu maior highlight: é a natureza da Lapônia que deveria fazer a Finlândia reluzir no topo de outra lista: a wish list de qualquer viajante.

No inverno local, entre dezembro e março, famílias do mundo todo fazem pulsar as pequenas cidades dessa região localizada bem acima do Círculo Polar Ártico. O destino de pais e filhos costuma ser Rovaniemi e sua vila do Papai Noel. Minha virada de ano por lá, porém, rendeu outros programas dos sonhos para marmanjos de todas as idades.

A 30 minutos de carro desde o aeroporto de Ivalo, o charmoso vilarejo de Saariselkä, colado ao Parque Nacional de Urho Kekkonen, aclimata os forasteiros ao branco infinito das paisagens cobertas de neve e gelo. As temperaturas podem chegar a 20 graus negativos - tive sorte, peguei apenas 18 graus negativos! Ao praticar trekking pisando em raquetes sobre a neve mais fofa do mundo, achei que uma só noite nesse clima já esgotaria a cota de diversão para o resto da semana. Afinal, a máxima dos termômetros não chega a 5 graus positivos. E não é que eu quis mais?

O viajante tropical deve resistir à tentação de colocar na bagagem uma montanha de casacos. Na Lapônia, o uniforme de todas as atividades é um macacão térmico. Com ele, fiz meu primeiro passeio de trenó em uma fazenda de renas no caminho para Rovaniemi. Sob pinheiros cobertos de neve, uma paradinha em frente a um dos lindos lagos congelados para um brinde que me fez até esquecer o clima severo: vinho quente servido em uma taça de madeira esculpida à mão pelo lendário povo local, os sami.

Por mais inóspito que pareça, essa friaca toda é o que se espera de Lehtoahontie, um dos melhores lugares do mundo para ver a aurora boreal. Lá está localizado o luxuoso Arctic Snow Hotel. Além das construções em gelo - quartos, restaurante, bar e até capela -, a estrutura inclui iglus feitos de madeira e teto de vidro que permitem ao visitante ser acordado durante a noite para ver, sem sair da cama, as fantásticas luzes do norte.

Antes de encarar o sono no quarto literalmente mais gelado da vida - 5 graus negativos! -, parecia boa pedida curtir uma verdadeira instituição finlandesa, a sauna, em versão de gelo. A experiência toda durou... dez minutos. Quem aguenta os pingos de água gelada que o vapor faz cair do teto? Já a jacuzzi instalada no topo da estrutura, com água beirando os 40 graus, faz relaxar quem dá sorte de ver a aurora dali. Em tempo: há um quarto aquecido, que pode ser utilizado por quem não aguenta passar a noite inteira dormindo no gelo. Mas só hóspedes que encaram o desafio congelante ganham o cobiçado certificado de braveza.

Orgulhoso do meu atestado de esquimó honorário, segui até a animada Rovaniemi. O centrinho conta com galerias de arte, feiras de rua - que fazem as vezes de mercado de Natal - bons restaurantes e lojinhas. No museu Arktikum entende-se a cultura da região. E mesmo quem deixou de acreditar no bom velhinho se diverte na vila do Papai Noel. Tem até correio onde deixar programada a cartinha das crianças para o próximo Natal.

Em uma das muitas atividades no entorno da cidade, pilotei um trenó puxado por huskies. Mas foi em um passeio noturno de snowmobile que tive o pedido de Natal atendido. Na primeira parada, quando foi montada a tenda com fogueira para aquecer os corpos, quem deu as caras? A aurora boreal! Brindei com desconhecidos o momento sublime em meio ao céu azul-cobalto do Ártico agradecendo pela oportunidade de estar ali.

Mas ainda não era réveillon. A noite de Ano-Novo seria, acredite, mais inusitada. Fomos a uma festa em meio a uma floresta, com pista de dança na neve, ice bar ao ar livre e tendas ocupadas por xamãs do povo sami que leem nossa sorte para o próximo ano. A queima de fogos de quatro minutos não chega a dar a Rovaniemi ares de Copacabana do extremo norte do planeta, mas de tão animado e lindo ninguém reclama nem do frio.

Como bom brasileiro, porém, eu queria começar o ano novo no mar. Viajei no dia primeiro até Kemi, na fronteira com a Lapônia sueca, para embarcar em um quebra-gelo. Depois de horas navegando, o capitão parou. Passageiros valentes poderiam flutuar em trajes especiais, sem bote, nas águas do Ártico. Enquanto vestia a pesada roupa flutuante, que deixa só o rosto à mostra, tinha dúvidas se encararia mesmo o desafio. Encarei. E jamais vou esquecer daqueles cinco minutos boiando entre blocos de gelo.

A dose derradeira de emoção oferecida era uma corrida a bordo de carrões tipo Ferrari, Masseratis ou até Teslas nas águas congeladas de Kemi para quem quer derrapar e rodopiar em alta velocidade sobre o gelo. Uma última prova de que os finlandeses sabem, como ninguém, transformar o inverno na estação mais quente do ano.


Quando ir
Durante todo o ano. Se no inverno, boa parte das atividades acontece durante o dia, no verão, com a chegada do sol da meia-noite, os finlandeses se aventuram em atividades como trekking nas muitas florestas da região.

Essencial
A Lapônia tem seu território distribuído entre Noruega, Suécia, Rússia e Finlândia, sendo que a maior parte está em terras finlandesas. A animada Rovaniemi, com sua vila do Papai Noel que fica aberta durante todo o ano, o charmoso vilarejo de Saariselkä e Lehtoahontie, um dos melhores lugares do mundo para ver a aurora boreal, são essenciais.

Onde ficar
Arctic Snow Hotel

A hospedagem é uma experiência. O Arctic Snow é um hotel “esculpido” no gelo. Todos os anos ele é reconstruído com apenas 30 quartos e as temperaturas internamente variam de 0 até 5 graus negativos. Além das construções em gelo - quartos, restaurante, bar e capela -, a estrutura inclui iglus feitos de madeira e teto de vidro, que permitem ao hóspede ver, sem sair da cama, as fantásticas luzes do norte.

 

*Viajante inveterado, Erik Sadao é apaixonado por descobrir novas culturas e experiências. Atuando há quase duas décadas no turismo, atualmente desenvolve projetos na área em Amsterdã, na Holanda.

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