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França além de Paris: Vale do Loire

10/03/2020

Por Erik Sadao*. Especial para a The Traveller

Palco da corte francesa durante o auge do Renascimento, o Vale do Loire arranca suspiros dos visitantes com a impressionante arquitetura de seus mais de mil castelos e a exuberância de seus incontáveis jardins.

Joana D’Arc, François I, Leonardo da Vinci, Catherine Médici, Diane Poitiers, Balzac, Rodin... São muitos os personagens de diferentes épocas que marcaram a história da região conhecida como Vale do Loire. O conjunto de cidades que nasceu às margens do Rio Loire e seus afluentes Cher e L’Indre, continua a atrair visitantes que se encantam com a impressionante arquitetura de seus castelos, suas charmosas cidades diminutas, sua saborosa gastronomia e vinhos típicos e sua história de séculos de glória. Para mergulhar na rica história que pulsa na região, a pedida é visitar suas cidades e explorar seus châteaux, como Chambord, Blois, Amboise, Chenonceau, Villandry e Azay-le-Rideau em agradáveis caminhadas ou pedalando.

Saindo de Paris, o caminho nos leva a Orleans

Localizada a cerca de 1h40 de Paris, Orleans é uma cidade fundamental para entender a Guerra dos Cem Anos, contra os ingleses, que levou a França quase à destruição; e, em
especial, a trajetória de Joana d’Arc, heroína francesa que ao vencer a batalha travada na cidade, em 1429, elevou a moral do povo, levando suas tropas à vitória e à libertação dos ingleses. Orleans foi fundada em um local que servia de ligação para os povos que vinham do Mediterrâneo em direção ao norte da Europa. Há indícios de construções do período romano, mas as grandes atrações são os prédios erguidos entre os séculos 15 e 16, quando a cidade se tornou uma das mais belas da França. A Catedral, em estilo gótico, e a Universidade, fundada por Carlos Magno – que serviu de modelo para a maioria das faculdades durante a Idade Média – são os grandes destaques.

Vale visitar também Montlivault, localizada a pouco mais de meia hora de Orleans. O pequeno vilarejo é endereço de alguns dos restaurantes mais celebrados do Vale do Loire: o Le Restaurant e o Côté Bistro, ambos assinados pelo chef Christophe Hay. Devido a sua localização estratégica, na entrada do “topo do vale”, Montlivault é queridinha dos ciclistas, que começam a explorar os 800 quilômetros da rota conhecida como Loire à Vélo. As viagens de bike pelo Loire são talvez a melhor pedida para conhecer a região.

O ABC Renascentista de François!

O rei François I é uma das figuras mais onipresentes do Vale do Loire, e as construções inauguradas durante seu reinado são consideradas a chegada do Renascimento na França.
Como grande mecenas do período, patrocinou engenheiros, arquitetos e artistas como Leonardo da Vinci, Rosso, Primaticcio e outros. O palácio do Louvre, em Paris, foi iniciado
durante seu reinado. No Vale do Loire, há três cidades essenciais para entender a evolução do estilo Renascentista na França: Amboise, Blois e Chambord, que contam com castelos
construídos ou redecorados com influência do movimento que nasci a na Europa.

A primeira parada obrigatória para quem segue de carro desde Paris – ou de bike desde Montlivault – é o Château de Chambord, o maior castelo do Vale do Loire, ícone da arquitetura renascentista francesa, que mistura formas medievais (góticas) ao estilo clássico renascentista chegava aos reinos da Europa a partir de Florença. Construído como um château de atividades de caça, o Chambord está localizado em meio a uma enorme floresta, que se mistura aos exuberantes jardins em estilo italiano que cercam a construção. A relação do Rei François I com Leonardo da Vinci pode ser sentida quando visitamos o castelo. Apesar da construção ser atribuída ao arquiteto Domenico da Cortona, há indícios de que Da Vinci esteve envolvido no projeto. Desenhos da famosa escada em espiral dupla, localizada no centro do castelo, foram encontrados em um de seus muitos cadernos de notas. A visita ao château conta com um moderno sistema multimídia instalado em iPads, que nos permite voltar no tempo através de perspectivas de seu interior em diferentes épocas.

Uma excelente pedida é combinar a visita ao Château Cheverny, localizado a curta distância e famoso por ter inspirado o artista belga Hergé a criar o Château de Moulinsart de As Aventuras de Tintim. Suas formas clássicas e homogêneas contrastam com a arquitetura renascentista do Chambord. O interior do castelo conta com exposições temporárias que valem a visita, além de uma mostra permanente sobre o personagem Tintim – imperdível para as crianças! Se o Chambord foi esconderijo de algumas das obras-primas do Louvre, a mais famosa delas, a Mona Lisa, ficou guardada aqui durante a Segunda Guerra Mundial reforçando a ligação histórica de Da Vinci com o Vale do Loire.

Blois é uma das cidades mais vibrantes do Vale do Loire, com grande concentração de excelentes restaurantes como o Le Bistrot de Cuisinier. A influência de François I é sentida no impressionante Château de Blois, cuja arquitetura contrasta claramente o estilo gótico às adaptações renascentistas promovidas por ele. Um dos momentos mais marcantes da história de Blois foi a benção que o Arcebispo de Reims concedeu a Joana d’Arc antes da batalha em Orleans. Preste atenção ao modesto escudo que imortaliza o momento, instalado na parede da parte antiga do castelo, em frente à praça.

O Loire é considerado o último rio selvagem da Europa. Ilhas como a d’Ouro se formam em sua extensão, facilitando o acesso a lugares como Amboise, localizada na sua margem esquerda. Uma das cidades mais agradáveis do Vale do Loire é também uma das mais importantes para os interessados pelo Renascentismo, que viveu seu auge na região. É aqui que Leonardo da Vinci, a convite do rei François I, veio passar seus últimos anos. Tão obrigatório quanto o Château d'Amboise, onde está localizado o túmulo de Leonardo, é a visita a Clos Lucé, o castelo, presente de François I, utilizado por ele como lar, laboratório e atelier. Mona Lisa, Sant’Ana e São João Batista foram as três obras que estiveram com ele até sua morte. Hoje, nos jardins do Clos Lucé estão expostos os protótipos de invenções militares e arquitetônicas criadas por Da Vinci.

Os Jardins de Villandry e o Iluminismo em Le Rideau 

Duas paradas obrigatórias são os Châteaux de Villandry e d'Azay-le-Rideau, localizados ao sul de Tours, a maior cidade da região, já na entrada da extensa rota de vinhos do Loire.
Durante a primavera, vários jardins do Vale recebem exposições de arte contemporânea, mas nenhum compete em grandiosidade com Villandry. O château foi erguido originalmente para ser a residência de membros do governo e da corte de François I. No começo do século 20, foi adquirido pela família Carvallo, que decorou seu interior com obras do período renascentista na Espanha e em Portugal. A família ainda construiu enormes jardins seguindo o estilo renascentista italiano, que hoje podem ser visitados e é um dos pontos altos para quem está de bicicleta.

Chenonceau - O cartão-postal das Setes Damas do Vale do Loire 

A imagem de um castelo erguido sobre uma ponte de arcos atravessando o Rio Cher é talvez a primeira que vem a nossa mente quando pensamos no Vale do Loire. É incontestável o
magnetismo que Chenonceau desperta nos visitantes. Para os aficionados por arquitetura, o château é considerado o momento em que “o gótico dá lugar ao renascimento”, devido às etapas de sua construção que ficam evidentes em sua extensão. Foi um presente do rei Henrique II, filho de François I, a sua amante, Diane de Poitiers. Após sua morte, a rainha Catarina de Médici o tomou e complementou a estrutura, construindo um salão de festas que viria a inspirar, mais tarde, Versailles, e um magnífico jardim que, ao invés de competir em beleza, mais parece engrandecer o construído anos antes por Diane de Poitiers.

Construído para o ministro das finanças de François I, o Château d'Azay-le-Rideau pode passar despercebido por quem visita o Vale do Loire. A pequena cidade foi um dos endereços preferidos de pensadores como Balzac e Victor Hugo e de artistas como Rodin, que utilizou o castelo como esconderijo para encontros com sua amante Camille Claudel. O château é cortado pelo Rio Indre e, além da excepcional arquitetura, reserva surpresas em seu interior, com exposições de arte contemporânea que dialogam com sua história. O mercado montado aos sábados divide espaço com pequenas lojas de chocolate, vinhos e azeites. É daquelas cidades francesas que vão ficar guardadas na memória para sempre, e que nos fazem refletir sobre como uma região que atravessou séculos de história tão marcante é capaz de nos emocionar e marcar para sempre.

Essencial

Desde 2000, o Vale do Loire é Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. Os 800 quilômetros quadrados da região são perfeitos para ser percorridos de carro ou mesmo em pequenos percursos de bicicleta. Passando por cidades e vilarejos como Orleans, Amboise e Montlivault, uma parte da História da França é contada em antigos castelos medievais e jardins ornamentais.

 

*Erik Sadao é publicitário, viajante inveterado e acredita que viagens são parte fundamental da nossa evolução. Radicado em Amsterdã, ele guia brasileiros pelo mundo, a partir da Europa.

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