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Japão e uma navegação especial

18/07/2019

Por Erik Sadao*. Especial para a The Traveller

Enquanto preparam o matcha, o lendário chá verde japonês, os dedos do chef tocam o balcão de bambu com a destreza de um musicista clássico. Hipnotizado, sigo-o com meus sentidos. Estou sentado descalço e trajando um quimono japonês, o yucatá, quando ele me oferece o chá em uma das porcelanas mais lindas que já vi. Um wagashi, o tradicional docinho que acompanha a bebida, é preparado na minha frente segundos antes de se dissolver por completo na boca. No paladar, agora predomina o gostinho amargo do matcha. 
O ritual poderia estar acontecendo em qualquer casa de chá com séculos de história em cidades como Quioto ou Kanazawa. Ou então num ryokan, os milenares hotéis japoneses construídos em torno das abundantes áreas de água termal do país.
Porém, ao invés do típico jardim japonês de pedras, vejo o sol refletido no Mar Interior de Seto, enquanto a Ilha de Shikoku desaparece ao fundo. Estou a bordo do Guntû (pronuncia-se Gân-su), o novíssimo e inclassificável navio japonês – cujo nome é emprestado do caranguejo azul, considerado a grande iguaria da região de Onomichi, cidade que é ponto de partida desta jornada.
À primeira vista, a simplicidade perfeita da embarcação não revela o interior que nos faz viajar no tempo. O elegante projeto minimalista assinado pelo arquiteto japonês Yasushi Horibe utiliza com perfeição 11 tipos de madeira japonesa e bambu para criar os ambientes do interior do navio. O restaurante principal está conectado a um sushi bar, que pode ser reservado só para duas pessoas. No outro extremo da casa de chá, de onde assisti à partida, um espaçoso deque com sofás convida para brindes o dia todo. Lá só não se brinda com saquê. Na lateral do barco estão instaladas áreas reservadas para degustações da bebida à base de arroz enquanto se aprecia a paisagem idílica da região.
De tudo o que já vivi no Japão, nada se compara à experiência de navegar instalado em uma suíte que remonta um tatame, com design minimalista e, em pleno Oceano Pacífico, com um espaçoso ofurô cheio de água termal. Não há melhor tradução para a filosofia omotenashi – a intuitiva arte da hospitalidade japonesa. E garanto com certeza de samurai: este barco irá redefinir o conceito de cruzeiro de luxo no mundo todo.

Tão diminuto quanto estiloso, o Guntû possui apenas 19 suítes com metragem generosa, instaladas em corredores que relembram uma casa tradicional japonesa. São 46 tripulantes para somente 36 viajantes, que não sentirão diferença caso optem por cabines no primeiro ou no último deque. Surpreendente, o motor é impulsionado pela energia solar e não faz barulho. A prova pode ser tirada no onsen – o equivalente ao spa japonês, com espaçosas banheiras de madeira –, no deque principal, com vista para o mar. Tanto do lado de dentro, quanto do de fora, o único som que se escuta é o da água. 
Nas suítes e em todas as áreas do Guntû, modernos iPads avisam sobre as atividades do dia. Os fãs do papel, como eu, recebem uma agenda, elegantemente impressa em papel de arroz, com os detalhes da programação. Distraído e encantado com o design da cabine, noto que perdi o momento em que o barco receberia um carregamento de polvos frescos da área de Honshu. Ao passar em frente ao restaurante, o chef, parecendo adivinhar meu deslize, me oferece dois tipos de sashimi recém-preparados com as iguarias.
Foi só um aperitivo para a experiência que se seguiria no sushi bar. Lá, outro chef, que descubro ter sido contratado do renomado Yamazato, o famoso restaurante do hotel Okura de Amsterdam, prepara com destreza alguns dos sushis mais especiais que já provei na vida, harmonizados com saquês e vinhos de todo o país. Sem exagero, superou o que vivi em alguns dos restaurantes mais conhecidos do Japão.
Há, claro, uma carta de vinhos especialíssima, com produções de todos os cantos do mundo. Quando fui apresentado à minha suíte, Shinichi-San me mostrou a adega, que é reposta diariamente com rótulos franceses como Chassagne-Montrachet, e o minibar, repleto de sucos orgânicos da região e celebradas garrafas do exclusivo Royal Blue Tea, o chá japonês que está sendo servido como vinho em hotéis da Europa. Não antes de mencionar: “Não se esqueça de que tudo está incluído. Não deixe de provar nosso chá.”
E os mimos não param por aí. Nos banheiros e no onsen, generosos frascos de produtos da marca japonesa Three convidam a tratamentos quadrifásicos para o rosto e hidratação do corpo. A marca de cosméticos, uma das mais exclusivas do Japão, só é utilizada como amenity pelo barco. Note que o kit em questão custa mais de mil dólares nas lojas da marca nos bairros sofisticados de Ginza ou Harajuku. Caso esqueça de colocar sua roupa de ginástica na mala, um estoque de pares de tênis e de trajes novinhos de todos os tamanhos pode ser utilizado na academia do barco. E como manda a tradição de hospitalidade omotenashi, assim como os cosméticos, são oferecidos de presente aos hóspedes mais distraídos.
Não será fácil, assim como não foi para mim, deixar a suíte. Mas as excursões preparadas em ilhas como Naoshima e Inujima, mecas artísticas mundiais e parte do instituto Benesse de Arte Contemporânea, são irresistíveis. Os passeios são planejados em horários em que as ilhas não recebem muitos visitantes e na companhia de um guia que as conhece como a palma da mão. Não há pressão com horários. Em Naoshima, estenda a parada para contemplar sem pressa as instalações de artistas japoneses consagrados como Yayoi Kusama ou Takashi Murakami. Mas minha surpresa maior foi Inujima, ilha menor, antiga pedreira abandonada, e que hospeda instalações de artistas internacionais como a nossa Beatriz Milhazes. Foi lá que fui atendido após pedir tempo extra.
Em outra exploração vespertina, caminhamos pela ilha de Tomonoura, onde casas do período Edo permanecem intactas. O guia tinha permissão para entrar em uma delas, e explicava sobre a dinâmica das portas de papel arroz e sobre os costumes da época em que o Japão viveu isolado do mundo. Mas perdeu minha atenção quando dei de cara com dois galos pintados pelo famoso pintor japonês Itō Jakuchū. Ao ver de perto as duas obras, não resisti perguntar se eram originais. Tanto ele quanto a dona da casa deram um sorriso e confirmaram a autenticidade. Era o único item da casa que não se permitia fotografar, mas eu estava a bordo do Guntû...
A região de Tomonoura é perfeita para ver de perto a impressionante Great Seto Bridge, a maior ponte de dois andares do mundo. Por ela cruza o shinkansen – o icônico trem bala –, além de carros e bicicletas. Com 13 quilômetros de extensão, começa em Okayama e chega até Shikoku, a sudeste, uma das quatro ilhas principais que formam o território do Japão. Seu gigantismo não permite boas fotos, apenas lindas memórias da sensação de pequenez. 
De volta ao barco depois de mais um desembarque, minha única preocupação era chegar a tempo da cerimônia do chá que, aliás, revezei com doses de café, tirados no ario, todas as tardes. Esses momentos me fizeram achar injusto o título que os italianos levam na arte do café. São experiências que reforçam minha convicção de que, assim como fez com as tecnologias, o povo japonês é capaz de aperfeiçoar qualquer prática.
Como o primeiro jantar elevou minhas expectativas, fui preparado para uma possível decepção na segunda noite. Porém, ao ser recebido pelo chef Jitsukawa, fui surpreendido com três bandejas com carnes, peixes e vegetais recém-colhidos, para que escolhesse a base do kaiseki. Kobe beef, wagyu, atum, lagosta e caranguejos guntû eram algumas das opções. Preparado à perfeição, o menu foi uma das melhores experiências gastronômicas que já vivi, garantindo que as vivências do paladar a bordo do Guntû se tornassem tão inesquecíveis quanto as excursões, o onsen, as cerimônias do chá, os mimos na suíte e, claro, a gentileza intuitiva de todo o staff.
Tendo a honra de ser o primeiro brasileiro a experimentar este impecável exemplar de hospitalidade, não poderia deixar de frisar que esta jornada foi muito mais que uma  simples viagem. Embarcar no Guntû foi uma vivência extraordinária, que guardarei para sempre na memória. A ponto de recomendar, sem medo das certezas, que esqueçam-se de tudo enquanto estiverem lá. Trata-se de um lugar e uma experiência para simplesmente viver o momento. Com prazer e sabedoria oriental.

 

Japão por terra

Hakone » O cenário aos pés do Monte Fuji não poderia ser mais impressionante: o Lago Ashi dá contorno a uma área que forma uma floresta, onde pequenas cidades foram desenhadas à perfeição. Fonte abundante de água termal, a área de Hakone é conhecida pelos cafés, restaurantes e até museus – como o icônico Open Air Museum –, onde o visitante é convidado a ficar descalço e relaxar os pés em pequenas piscinas abastecidas com a água quente, repleta de benefícios para a saúde, que brota do solo.

Miyajima » A pequena ilha próxima a Hiroshima é lar do tori xintoísta mais famoso do
Japão – localizado no santuário Itsukushima, que muda completamente de cenário a cada 6 horas devido à maré. Repleta de templos históricos, cafés e pequenos restaurantes supertípicos, Miyajima se revela uma enorme surpresa para todos os viajantes que sabiamente optam por passar a noite na ilha quando visitam a região de Hiroshima.

Tóquio » Ginza, Nihonbashi, Shibuya, Harajuku, Shinjuku, Roppongi e Asakusa. É possível passar muitos dias em qualquer um dos bairros da superlativa Tóquio. Em nenhuma outra cidade do mundo há tantas excelentes opções de atrações culturais ou gastronômicas. Se na primavera, a florada das cerejeiras atrai multidões à cidade, experimente visitá-la entre o outono e o inverno, quando peixes, frutos do mar e frutas como o docíssimo morango do país estão no auge, elevando a experiência de comer em Tóquio a um patamar ainda superior.

Quioto » A maior concentração de templos e um dos distritos de gueixas mais famosos do país são suficientes para incluir Quioto em qualquer roteiro ao Japão. Mas para quem busca contato com a natureza e não tem muitos dias para se aventurar em outras regiões, a dica é passar uns dias em Arashiyama, que conta com um novíssimo hotel, com ares de ryokan e banhos termais, a poucos minutos da floresta de bambu mais fotografada do planeta. Como para compreender a fascinante cultura do povo japonês é essencial entender a chegada da religião budista ao país, é recomendado passar um dia inteiro em Nara, para ver de perto a mistura do xintoísmo com o budismo presente em templos impressionantes como o Tōdai-ji, até hoje uma das maiores estruturas de madeira do planeta.

Miyajima » A pequena ilha próxima a Hiroshima é lar do tori xintoísta mais famoso do
Japão – localizado no santuário Itsukushima, que muda completamente de cenário a cada 6 horas devido à maré. Repleta de templos históricos, cafés e pequenos restaurantes supertípicos, Miyajima se revela uma enorme surpresa para todos os viajantes que sabiamente optam por passar a noite na ilha quando visitam a região de Hiroshima.

Monte Koya » Um dos lugares mais sagrados do Japão, o “Koyasan”, como é chamado pelos japoneses, propõe uma das experiências mais fascinantes a serem vividas no país. Considerado o santuário do budismo esotérico, a corrente trazida por Kōbō-Daishi no século 8 à ilha, a pequena cidade formada basicamente por templos budistas e santuários xintoístas, que podem ser visitados a curtas distâncias a pé, não conta com nenhum hotel. Para vivenciar o Monte Koya, é preciso passar a noite em um dos muitos templos que contam com hospedagem, em estilo ryokan, onde as refeições e serviços são preparados por monges da região. Ao amanhecer, é possível participar da primeira meditação dos monges de cada templo. Quem reserva somente uma noite sai de lá planejando a data de voltar...

* Erik Sadao é apaixonado pelas descobertas de experiências de viagens e foi o primeiro brasileiro a bordo do exclusivíssimo Guntû.

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