Compartilhe
facebook twitter gplus mail

Israel pra não esquecer

22/08/2018
Mercado tradicional em Tel Aviv
Jerusalém à noite

Descobrir Israel é viajar em lembranças. E seja qual for a sua crença, sempre vai ter algo para ser lembrado nesse país delgado, entre o Líbano, a Jordânia e o Egito.

Por Eduardo Vessoni. Especial para a The Traveller.

Judeus oram e depositam pedidos nas ranhuras do Muro das Lamentações; católicos se perdem em ruelas estreitas da Via Dolorosa, em lembrança ao caminho feito por Jesus Cristo até a sua crucificação; e árabes ainda lamentam a perda de antigas terras. Jerusalém é a versão religiosa de Israel, considerado o destino mais sagrado do país, a 70 quilômetros de Tel Aviv. Cheguei à Cidade Velha em uma sexta-feira de Shabat, o dia de descanso dos judeus, em que o país para, literalmente, e se abstém de atividades cotidianas como dirigir e trabalhar. O país para, mas a fé, não. Uma das experiências mais marcantes é a visita ao Muro das Lamentações, no setor ocidental. No sábado pela manhã, famílias judias caminham pelos becos de Jerusalém em direção a esse local, que serve de lamentação pela queda do Segundo Templo Sagrado, em 70 d.C. É ali que são entoadas orações que parecem movimentar as andorinhas que voam em círculos, coreograficamente, sobre suas cabeças.

Mais adiante, a voz firme do adhan sai do alto-falante do minarete da mesquita, convocando muçulmanos para a próxima parada de orações, enquanto grupos de católicos estrangeiros seguem em cortejo pela Via Dolorosa. Há um congestionamento no comércio paralelo do bairro árabe, que dá outro ritmo a essa cidade de tons monocromáticos e que chega a receber mais de 3 milhões de visitantes por ano. Sob a icônica Cúpula da Rocha, cujo domo dourado é o símbolo sagrado do islamismo, um portal leva ao Souk el-Qattanin, um (delirante e ruidoso) mercado do século 14, que abriga lojas em corredores estreitos. Ali, vale uma parada para provar o famoso chá árabe de menta, sorvido em banquetas de madeira espalhadas nas calçadas.

Fora do setor religioso, outros dois endereços são paradas obrigatórias em Jerusalém. Maior mercado da cidade, o Mahane Yehuda é uma confusão de sons e sabores que recepcionam forasteiros com música árabe e pequenas amostras de produtos, que comerciantes insistem em oferecer para degustação, como a halva, o tradicional doce do Oriente Médio feito com semente de gergelim, que ganhou versões com uísque e Nutella. É tanta informação, que a atração conta até com o Bite Card, uma espécie de passaporte gastronômico com vouchers que dão direito a provar seis produtos diferentes, de pão pita com  homus a imarula, uma massa salgada recheada com queijo.
Já o Hatahana é um complexo gastronômico e de entretenimento com pinta de Vila Madalena, em funcionamento no interior da antiga estação, que recebia trens da linha Tel Aviv-Jerusalém entre o final do século 19 e 1948, ano que marca o estabelecimento do Estado de Israel.

A uma hora dali, a confusão de crenças se dispersa em outro cenário icônico do país: o Mar Morto, a cerca de 400 metros abaixo do nível do mar e com alto grau de salinidade. Os resorts à beira-mar em Ein Gedi destoam daquele cenário árido rodeado pelo Deserto de Negev, na fronteira com a Jordânia. Por ali, todo mundo parece mesmo preocupado em flutuar sobre as águas densas desse lago, que impedem que os banhistas afundem e aproveitar a lama que tem propriedades dermatológicas. Se Jerusalém é o endereço israelense da fé, a vibrante Tel Aviv é o lugar de todas as crenças (religiosas ou não). Às margens do Mar Mediterrâneo, essa cidade de 450 mil habitantes tem ares cosmopolitas, como Barcelona. “Tel Aviv é o lado mais esnobe de Israel”, descreve Michael Katz, chef de cozinha e embaixador gastronômico do país. A cidade se exibe no calçadão à beira-mar com pubs e restaurantes espalhados ao longo dos 14 quilômetros de praias setorizadas, que vão da esportiva Aviv Beach à gay Hilton Beach. Localizado no sul da cidade, o bairro de Florentin é a versão israelense do Soho nova-iorquino e trocou a deterioração das décadas passadas pelas artes alternativas e bares boêmios da Vidal Street.

Já Neve Tzedek, um dos bairros mais antigos da cidade, é o lado vintage de Tel Aviv com galerias de arte e boutiques, uma espécie de oásis, que de longe lembra a muvuca da vizinha Old Jaffa, antiga cidade portuária que vê suas ruas lotadas de turistas circulando entre produtos do Shuk Hapishpishim, o mercado de pulgas de Jaffa, e  construções históricas restauradas. E se esse jovem país com menos de 70 anos ainda tenta aprender o significado de expressões básicas como ‘obrigado’ e ‘com licença’, o comércio surpreende com locais como o Puaa, restaurante na viela Rabbi Yohanan, em Jaffa, com staff de (raros) jovens sorridentes e atenciosos que não se cansam de  explicar o discreto cardápio de pratos do Oriente Médio com influências internacionais como o “tahini vermelho” e o “majadera”, arroz selvagem com lentilhas e iogurte.

Tel Aviv se exibe também na Cidade Branca, Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, que abriga mais de 4 mil edifícios de estilo Bauhaus erguidos nas décadas de 1930 e 1950 pelas mãos de arquitetos judeus alemães que fugiam da perseguição de Adolf Hitler. Ao norte do país, em seu setor mais verde, outro destino sagrado também vem carregado de lembranças. Declarada uma das quatro cidades santas do judaísmo, Tiberíades é a principal parada às margens do Mar da Galileia. Nosso guia até tenta prender a nossa atenção com detalhes de passagens bíblicas, como o milagre que fez Jesus caminhar sobre aquelas águas, mas a gente parece só ter atenção para o passeio no barquinho de madeira com capacidade para 12 discípulos, nas palavras de Smard, que conduz tours cristãos, ou para o pôr do sol nesse lago de água doce, aos pés dos montes Golã. Vá preparado com roupa adequada para banhos nas águas frias e esverdeadas da Galileia, uma das experiências mais revigorantes daquelas terras santas. E se ainda sentir que falta alguma crença, Israel sempre terá algo para revelar. Nem que seja apenas mais uma história para lembrar.

 

Quando ir
De março a maio e de setembro a novembro

 

Onde ficar

Mamilla Hotel
Jerusalém]
Com design intimista e contemporâneo, o Mamilla Hotel tem vista para marcos históricos, como o Portão de Jaffa e a Torre de Davi. Dividido em quatro áreas — terra, água, fogo e ar —, o centro de bem-estar Akasha promove uma experiência holística única.

The Ritz-Carlton, Herzliya
Tel Aviv
As vistas para o Mediterrâneo são destaques dentre as inspirações do design contemporâneo do hotel, que é um dos melhores de Tel Aviv.

0 Comentário

Comentários com conteúdo impróprio e/ou spam poderão ser removidos.