Compartilhe
facebook twitter gplus mail

Índia: uma viagem pela fé

23/04/2019

Por Erik Sadao*. Editor da The Traveller

Tive o bom carma de ter pisado na Índia quatro vezes. E quanto mais esse país intrigante se mostra, mais ele me transforma por mostrar a beleza da fé nas mais variadas cenas de devoção a diferentes deuses em cidades fascinantes. Deus, na Índia, está em toda parte. Peregrinos que adoram as centenas de deuses hindus chegam a Varanasi ao nascer do sol para banhar-se no sagrado Rio Ganges. Alguns budistas se prostram diante de imagens de Buda na Sarnath, onde o mestre proferiu seus primeiros ensinamentos após atingir a iluminação. Outros entoam mantras aos pés do Himalaia, na Dharamshala que mais parece um pedaço do Tibete. No Golden Temple de Amritsar, adeptos do sikhismo, sempre com turbantes na cabeça, cozinham de forma devocional para a comunidade. As bandeirinhas coloridas do budismo enchem de magia os monastérios budistas de Ladakh, assim como os templos jainistas do dourado Rajastão. Nas páginas a seguir, apresento um pouco do que alguns dos principais destinos sagrados da Índia têm a mostrar a quem estiver aberto para viver tamanha diversidade e beleza – seja qual for o Deus em que escolher acreditar.

Varanasi e o hinduísmo
Localizada a sudeste de Délhi, Varanasi em nada se parece com as famosas cidades do vizinho Rajastão. A opulência e o brilho dourado de mesquitas, mausoléus e fortes dão espaço a singelos templos ancestrais onde o tempo parece não ter passado. Até hoje, multidões chegam para se banhar nas águas do Rio Ganges, repetindo rituais tão antigos quanto sua história. Na cultura hinduísta, os rios são considerados deuses, e acredita-se que um mergulho em suas águas é capaz de purificar várias encarnações. Ser cremado às margens da “Ganga” e ter as cinzas jogadas em suas águas, diz a tradição, eliminaria totalmente o carma e o ciclo de encarnações já nessa vida.
Em um cruzeiro pelo Ganges ao nascer do sol é possível ver chegando para o banho matinal os sadhus, homens sagrados do hinduísmo que se acomodam para a meditação diária nas escadarias do rio. Fogueiras acesas na noite anterior ainda queimam em crematórios instalados ao longo de suas margens. É o ciclo da vida encarado com naturalidade pela religião. Em rituais como esse os viajantes enxergam a beleza da fé. Alguns aproveitam para meditar, praticar um pouco de yoga ou simplesmente relaxar enquanto ouvem seu guia explicar a “roda da vida” do hinduísmo ao som da cítara tocada por um músico que sempre compõe a equipe dessas pequenas embarcações.

A maioria dos templos erguidos em Varanasi é dedicada a Shiva, deus que, na divina trindade hindu, representa a destruição e a criação – aquele que abre espaço para o novo fazendo a roda da vida girar. A miríade de deuses do hinduísmo evoluiu, em grande parcela, a partir dele. Quase sempre há uma figura feminina com iguais poderes. A afirmação feita pelos guias de que as primeiras encarnações de Shiva eram girinos, peixes e primatas deixa boquiabertas pessoas com inclinações evolucionistas (caso desse viajante que aqui escreve). Talvez a única religião do mundo que dialogue com os livros de Darwin.

Ponto alto da viagem, a “Ganga Aarti”, cerimônia ao pôr do sol realizada às margens do rio que se costuma vivenciar em Varanasi, é um agradecimento aos deuses hindus pelo dia vivido. Uma pequena multidão, com aqueles sorrisos que parecem capazes de tocar o coração, organiza os altares onde sacerdotes do hinduísmo, com seus castiçais repletos de velas de manteiga ghee, realizam um rito pleno de cantos e movimentos voltados para as águas. Conforme o sol se põe, as luzes ganham novas nuances. Tudo é muito intenso. Com os sentidos aflorados, alguns riem, outros choram. E essas reações, tão primárias, são somente a resposta do nosso corpo ao entrar em contato com o que, talvez, seja o tempo e ritmo real do mundo.

Sarnath e as quatro nobres verdades de Buda
Imagens de templos, monges e manifestações típicas da religião budista vêm à nossa mente sempre que pensamos na Ásia. De acordo com fontes modernas, Buda Shakyamuni, o primeiro Buda, também conhecido como Siddartha Gautama, nasceu no século 5 a.C. em Lumbini, hoje localizada no Nepal, como herdeiro de um grandioso reino pertencente ao clã Shakya. Logo após seu nascimento, seus pais, que seguiam a tradição astrológica milenar da região, descobriram suas inclinações a se tornar um ser iluminado e ter uma vida dedicada ao desenvolvimento espiritual. Um dia, por acidente, após contato com uma pessoa prestes a morrer, questões sobre o sofrimento e a efemeridade da vida começaram a tomar conta da mente de Buda. Ele decidiu, então, que sairia das cercanias de seu reino em busca de respostas. Depois de experimentar a meditação e o jejum severo como sacrifícios para alcançar a iluminação, percebeu que a única maneira de atingi-la não era sacrificando o próprio corpo, e sim domando a mente para, finalmente, chegar à iluminação.

Faço esse resumo sobre a história do budismo para ilustrar a importância de Sarnath para a religião. Foi na cidade que, após a iluminação, Buda teria passado os primeiros ensinamentos sobre as quatro nobres verdades (na língua pali): Dukkha, a realidade do sofrimento; Samudaya, a realidade da origem do sofrimento; Nirodha, a realidade da cessação do sofrimento; e Magga, a realidade do caminho para a cessação do sofrimento. Alguns séculos depois, foi erguida na cidade uma imensa estupa pelo imperador Ashoka, que transformou o budismo na religião oficial da região, o que perdurou por quase 3 séculos. A filha de Ashoka foi enviada a Bhodgaya e de lá trouxe mudas da figueira (mais conhecida como bhodi tree) sob a qual Buda teria se sentado. As mudas foram plantadas em Sarnath e em outros locais hoje sagrados para o budismo, como Anuradhapura, no Sri Lanka. Além de visitar as ruínas da estupa original e a bhodi tree, o visitante pode admirar relíquias que datam do século 4 a.C. expostas no obrigatório Museu de Sarnath, um dos mais impressionantes em que pisei na vida.

Dharamshala e o retorno do budismo à Índia
A cidade que recebeu o Dalai Lama após a ocupação do Tibete no final da década de 1950 nem sempre está presente nos roteiros para a Índia. Depois de passar por Sarnath e outras cidades fundamentais para entender a história da religião, é quase um dever visitar Dharamshala. É lá que presenciamos o retorno da religião budista a seu berço de origem. Localizada em Himaschal Pradesh, Dharamshala está incrustada em meio às primeiras formações de cordilheiras infinitas que começam a formar os Himalaias. Para o budismo tibetano, uma localização estratégica, já que outras importantes cidades para a religião, como Ladakh, ou mesmo reinos como o Butão podem ser facilmente acessados partindo da “nova capital do Tibete”. Esse título, por sinal, se deve a diversos motivos; o principal são os centros de cultura tibetana fundados na cidade onde repousam as escrituras sagradas do budismo. Em várias oficinas, trabalhos manuais são realizados por artistas tibetanos e voluntários do mundo todo. No Norbulingka Institute pode-se conferir a produção de roupas, ilustrações e mobiliários tibetanos. É programa obrigatório. Um fair trade que dá um fio de esperança à tentativa de manter viva uma cultura que, em sua terra natal, já começou a desaparecer.

No centro de Dharamshala, cheio de lojas lideradas por refugiados tibetanos e imigrantes do vizinho Nepal, visitantes circulam em meio a monges de todas as idades que lotam cafeterias e restaurantes. O Theckchen Choeling, também conhecido como “templo do Dalai Lama”, recebeu esse apelido por ser o local onde ele comparece regularmente para cerimônias. Quando estive lá, perguntamos a um grupo de monges se seria realmente possível nos encontrarmos com Sua Santidade; como resposta, nos disseram que “se fizesse parte do nosso carma, aconteceria com toda a certeza”. Essa experiência trouxe um enorme aprendizado sobre a verdadeira fé. Na manhã em que assistimos a uma cerimônia de cantos budistas, que poderia, sim, ter a presença do Dalai Lama, ao chegar ao lobby do hotel dei de cara com praticamente todos vestindo roupas brancas – a maior demonstração de fé brasileira. Ninguém combinou a cor da roupa a ser usada naquele dia. Em sintonia, foi a forma que encontramos de mostrar respeito para experimentar a fé do outro.

Amritsar, a cidade sagrada dos Sikhs
Amritsar, no estado de Punjab, é a cidade sagrada do povo sikh. Sua religião, sikhismo, considerada a mais jovem do mundo, surgida no século 15, é com frequência comparada a vertentes esotéricas do islã. O livro sagrado da religião exerce o papel de guru. Seu principal mandamento é que todo sikh deve fazer algo pelo próximo ainda nesta vida. Como não há um líder, prevalece a irmandade. A chegada ao Golden Temple, principal templo sikh do mundo, é marcada por emoção. Se pela manhã os visitantes podem observar o funcionamento da cozinha e até participar de trabalhos, como produção de pães ou limpeza de vegetais, ao pôr do sol são convidados a acompanhar a cerimônia de “recolha do livro”, quando o livro/guru é guardado até o dia seguinte. No final da cerimônia, frequentadores do templo fazem a limpeza de todos os cômodos e objetos. Em grandes celebrações, mais de 10 mil refeições são servidas a qualquer um que passe por lá. Tenho certeza de que, após vê-los trabalhar com enorme alegria, cantando, sorrindo e apoiando-se mutuamente, você sentirá que vivenciou uma das maiores demonstrações de humanidade – talvez, o maior objetivo dessa viagem.

Jainismo
Acredita-se que Maharavira, guru fundador do jainismo, foi contemporâneo de Buda. Há muito em comum sobre as duas filosofias. Extremamente pacifistas, os jainistas acreditam que todos os seres são dotados de alma e, como até mesmo um inseto pode ser a reencarnação de outro ser, carregam uma pequena vassoura para limpar o caminho por onde passam. Os templos de mármore branco, que mantêm viva a religião, são decorados com símbolos astrológicos, sendo o Ranakpur, no Rajastão, o mais belo de todos.

Ladakh e as paisagens épicas da caxemira indiana
Para pousar em Ladakh, o piloto opera por instrumentos planando entre um sem-fim de montanhas até chegar a um platô que parece ter sido esculpido para servir de pista de pouso. Ao sair do avião, o corpo sentirá a altitude. Afinal, assim como em boa parte da Caxemira, estamos a mais de 3 mil metros de altura. A melhor época para visitar o local é o verão. Cinco noites são suficientes para ver os principais monastérios e, com sorte, participar de alguns dos inúmeros festivais que acontecem na cidade anualmente. É possível praticar trekking, hikking, biking e um surreal rafting nos rios Zanskar e Hindus, cujo entroncamento lembra o encontro das águas dos rios Negro e Solimões. No inverno há uma série de atividades, como o disputadíssimo safári para ver o leopardo-das-neves, que habita a região, mas templos e hotéis não funcionam.
Uma manhã no monastério de Thikse resume muito do que o viajante encontrará em Ladakh. Já na recepção, os sentidos afloram com os primeiros sons da concha, usada como uma espécie de trompete no chamado para a oração. Na entrada do templo, crianças com pouco mais de 5 anos nos recepcionam cantando os primeiros mantras antes de os monges assumirem a leitura das escrituras sagradas.

Esses momentos são um convite à melhor prática de mindfullness. Mas o ponto alto da viagem é o Alchi Monastery. Construído há mais de mil anos, conserva impressionantes afrescos, que contam a história de Buda antes da reforma tibetana, e mostram de forma clara a coexistência com o hinduísmo e com os reis que governaram a Índia na época. Se ainda houver dúvidas sobre a beleza mágica desse lugar, imagine a sensação de almoçar em uma tenda instalada a 5 mil metros de altura, depois de um trekking em meio à cordilheira de Ladakh. Lá do alto, as bandeirinhas de oração budista dão cor ao cenário ora árido, ora coberto de neve de algumas das montanhas mais lindas que você verá na vida. Quando se acostumar com a paisagem, é possível que sinta um pouco da fé que há séculos move o homem a desafiar os Himalaias.

* Erik Sadao  - viajante inveterado, apaixonado por descobrir novas culturas, atua há quase duas décadas no turismo e é responsável pelo desenvolvimento de novos destinos para a Teresa Perez Tours. 

Grupo Especial Teresa Perez EPIC Índia 
Um mergulho nas tradições religiosas, nos costumes e cenários imponentes do país

De 12 a 28 setembro

0 Comentário