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De trem na África do Sul

02/10/2018

Por Mari Campos*. Especial para a The Traveller

Devagarzinho, a bela e ensolarada Durban foi ficando para trás, com seus últimos fragmentos passando entrecortados pelas minhas janelas. Do lado de fora, novas paisagens sul-africanas iam se revelando lentamente. Do lado de dentro, o charme dos vagões desenhados à moda antiga combinava perfeitamente com os confortos da contemporaneidade e com a excelência em serviço de uma equipe afinadíssima.

Há sempre algo meio mágico em torno de uma viagem panorâmica de trem – e cruzar a África do Sul a bordo de um deles é uma das formas para se conhecer sua faceta mais autêntica. O país conta com trens de luxo que figuram na bucket list de muita gente: o Blue Train, com cabines e interior mais contemporâneos, ligando Pretória à Cidade do Cabo; e o Rovos Rail, com interior clássico e locomotiva a vapor – ao menos nos primeiros quilômetros da viagem – que remete ao período das luxuosas viagens de trem da era vitoriana em diferentes itinerários da África do Sul, Zimbábue e Tanzânia. A minha viagem a bordo do Rovos Rail de apenas três dias, uma das mais curtas do portfólio da companhia, me levava da costa sul-africana pelo território KwaZulu-Natal até chegarmos à capital Pretória. Era a primeira vez em que eu explorava esta parte do continente a bordo de um trem. Em um clima totalmente Out of Africa, com o glamour de outros tempos no ambiente interno se mesclando à vida cotidiana, que se revelava do lado de fora, o barulho compassado dos vagões antigos rangendo ao deslizar sinuosamente sobre os trilhos não poderia ser mais sedutor. 

 

À moda antiga

Os vagões coloniais, hoje inteiramente renovados, eram puxados alternadamente por vapor, diesel e eletricidade, compondo uma verdadeira viagem no tempo por si só. Mas, exclusivo que só ele, o trem carrega 36 cabines e 72 hóspedes, com cada governanta/butler responsável por um máximo de três cabines, garantindo uma personalização de serviços louvável. Os chamados vagões-sociais – o lounge-bar e o vagão panorâmico – logo se viram repletos de turistas de diferentes partes do planeta trocando experiências e impressões sobre os dias anteriores no país. É no luxuoso vagão-restaurante que são servidos café da manhã e, com um pouco mais de formalidade, o jantar. A gastronomia é internacional, mas valoriza bastante os sabores e ingredientes locais, garantindo também opções de caça e outros sabores bem sul-africanos.

 

Experiências exclusivas

Os roteiros oferecidos pela Rovos Rail, fundada em 1989 pelo sul-africano Rohan Voss, operam sempre em sistema tudo incluído: passeios, refeições de alta gastronomia, snacks e bebidas sempre à disposição dos hóspedes. Outros itinerários da companhia levam turistas à Cidade do Cabo, ao Kruger e também a outros destinos africanos, das Victoria Falls a Dar Es Salaam ou ao deserto da Namíbia. 

Ao longo das jornadas, paradas matutinas e vespertinas diárias estão previstas nos roteiros, geralmente valorizando safáris, povoados pouco explorados pelo turismo, atrações históricas e organizações não governamentais, sempre de maneira intensa e bastante exclusiva. E, claro, também garantiam tempo de sobra para curtir o trem, socializar com outros passageiros ou mesmo colocar a leitura em dia. A primeira parada da minha viagem foi no tocante Mandela Capture Site, para visitar o monumento e o museu erguidos no próprio local onde Nelson Mandela foi preso. Do emocionante e pequenino museu, a curta caminhada pelas terras de KwaZulu-Natal até o monumento não leva mais que dez minutos, mas foi poeticamente batizada de Long Walk to Freedom. É só quando chegamos diante da escultura que conseguimos ver nitidamente que os pilares de ferro erguidos ali formam o rosto de Mandela. Nos dias seguintes, exploramos – sem a presença de nenhum outro turista à vista – os campos de Spionkop (importante cenário das batalhas entre a República Sul-Africana e as forças britânicas, no início do século 20), a cooperativa Ardmore Art Collection e fizemos dois inesquecíveis safáris em busca dos big five em partes distintas da reserva natural Nambiti.

 

* Mari Campos é jornalista especialista em conteúdos de turismo de alto padrão e passa a maior parte do ano em aventuras mundo afora, que rendem colaborações para diversas publicações nacionais e estrangeiras.

 

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