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Alasca: a última fronteira

14/06/2019

Textos e fotos por Andrei Polessi*. Especial para a Teresa Perez

Sem dúvida, o Alasca é um destino que habita o imaginário dos viajantes apaixonados por lugares remotos e menos convencionais. O que muita gente não sabe é que há várias formas de se conhecer esse lugar de natureza tão exuberante e paisagens de tirar o fôlego. Foi pedalando 500 quilômetros entre geleiras, rios, trilhas e lagos, que pude conhecer de perto toda a riqueza que esse remoto canto do planeta esconde. E apesar de ser considerada uma das regiões mais desafiadoras do mundo, é sem dúvida uma das mais bonitas.

The last frontier – a última fronteira
É assim que os americanos se referem ao Alasca, um território de proporções continentais. Com pouco mais de 700 mil habitantes espalhados numa área de 1,7 milhão de quilômetros quadrados, é o terceiro estado menos populoso do país. Foi comprado da antiga União Soviética em 1857 por apenas US$7.2 milhões de dólares, em uma negociação que gerou muita polêmica na época. O povo americano achou um desperdício a quantia gasta pelo governo para adquirir um território tão remoto, deserto e gelado como aquele. O Alasca acabou se tornando o maior estado americano (mais de duas vezes o tamanho do Texas) e sem este pedaço de terra, os Estados Unidos seriam hoje um país menor que o Brasil e com muito menos riquezas, já que seu território é riquíssimo em recursos naturais – principalmente gás, petróleo e pesca.

Nem tudo é branco: as paisagens do Alasca podem surpreender

Pedalar pelo Alasca, uma experiência única
Apesar de 500 quilômetros ser uma distância ínfima da área total do Alasca, de bicicleta, o visitante tem a melhor amostragem em termos de cenários, clima, fauna e flora. O barulho dos rios, dos pássaros e o cheiro da mata são sentidos de uma maneira mais profunda quando se está pedalando. Quando se viaja assim, parar no meio de uma trilha para descansar e fazer um lanche, é um dos maiores prazeres da vida. A cada quilômetro percorrido, nos acostumamos a contemplar e prestar atenção a tudo que passa à nossa volta. Minha viagem começou em Anchorage, a cidade mais populosa, com 300 mil habitantes, cercada pela imponente Cordilheira Chugach. Cheia de bares, restaurantes e até um shopping center, o lugar já dá uma amostra da hospitalidade local. O Alasca também é tax free zone: em outras palavras, aproveite para fazer suas compras sem pagar os impostos de 7% a 8,5% que são cobrados na maioria dos outros estados americanos.

As microcervejarias artesanais brotam em cada canto e são um convite para a descoberta de novos sabores. Num dia de sol, vale trocar a bike pelo trekking vertical de 2,4 quilômetros, com quase 400 metros de elevação, até o cume da Flattop Mountain (989 metros) para o visual mais espetacular do vale. Meu pedal foi um giro no sentido horário. Rumei ao norte, seguindo a Glenn Highway, passando por Palmer, Lago Lucille em Wassila e em zigue-zague por entre rios de degelo e matas belíssimas. Ao chegar na região das montanhas Talkeetna, alcancei a altitude do Hatcher Pass (1.184 metros) e a Independence Mine, esta última, uma mina desativada dos anos 1930, da época da corrida do ouro; em vários locais, placas avisam que a mineração recreativa é permitida.

Muito além das duas rodas
O Alasca pode ser explorado de muitas formas. O tamanho colossal do seu território, de difícil acesso, popularizou o transporte aéreo. Independentemente do jeito que escolher viajar, não deixe de fazer um voo panorâmico até as montanhas locais e aos glaciares. Os voos de helicópteros têm em média uma hora de duração, saindo de Girdwood, com um pouso para algumas das fotos mais instagramáveis da viagem no Glaciar Colony. Os bush planes, aviões de pequeno porte, também proporcionam vistas impressionantes. Para garantir que se veja o máximo possível, a melhor pedida é um roteiro multiaventuras. Os trajetos feitos de bike podem ser complementados com atividades como rafting, hiking, caiaque e caminhadas.

É possível viajar assim em diversos roteiros: desde a exploração de glaciares, passando pela Península de Kenai, até o Parque Nacional Denali (onde se encontra o Monte Denali, a montanha mais alta da América do Norte, e um dos sete cumes do mundo, com 6.190 metros). Ao visitar o parque a bordo do Denali Star, um trem panorâmico (com teto de vidro), que sai de Fairbanks até Seward, vai ser difícil desligar a câmera. Quem opta por cruzeiro, viaja pelo Golfo do Alasca. Os highlights da região de Seward são os fiordes do Parque Nacional Kenai, com suas geleiras centenárias e paisagens surreais.

De julho a setembro: calor e aurora boreal
A localização em altas latitudes ao norte, com grande parte de seu território no Círculo Polar Ártico, faz com que o clima do Alasca seja imprevisível. Num mesmo dia, em questão de horas, experimenta-se frio, chuva e até sol de rachar. Apesar da alta procura, o verão ainda é   melhor época para se programar uma visita. Geralmente com temperaturas agradáveis, entre 10ºC e 22ºC. O severo inverno limita muitas atividades, com noites que podem beirar os -30ºC. Setembro é o começo da temporada para ver a aurora boreal. Fairbanks, ao norte de Anchorage, é um dos destinos mais procurados pelos caçadores das luzes do norte. Como a aparição das auroras depende de uma série de fatores, dentre eles a quantidade de incidência de partículas solares na atmosfera e o céu sem nuvens, nada é garantido. A recomendação é escolher um lodge mais afastado, já que as luzes da cidade atrapalham a visualização. A maioria deles conta com o serviço de aurora wake up call – você é acordado toda vez que elas aparecem. E quando se dorme em um iglu com teto de vidro, não é preciso sequer levantar da cama para apreciá-las.

O apelido dado ao Alasca de a última fronteira se deve porque, não importa quantas vezes retornarmos à região, a sensação é de que nunca testemunharemos de fato toda a sua grandiosidade. Imenso em suas proporções e ilimitado em suas possibilidades, o Alasca é superlativo. E para quem ama uma aventura, sempre existirá uma nova fronteira esperando para ser explorada.


Quando ir
Junho a setembro. O verão no Hemisfério Norte, que começa em junho, é a estação perfeita para conhecer o Alasca com suas geleiras, lagoas, vulcões, montanhas e florestas. Essa é a temporada dos cruzeiros e o período em que a vida natural do maior estado americano está no seu auge.

Como explorar
Navegando
Um cruzeiro de expedição é a mais famosa – e principal – forma de explorar este verdadeiro mundo gelado, num equilíbrio perfeito entre sofisticação, conforto, aventura e novas descobertas. Companhias como a Regent e a Silversea Cruises têm diversos roteiros pela região, sempre com foco em explorar paisagens que estão entre as mais impressionantes do planeta.

De bike
Das atividades surpreendes no Alasca, as trilhas percorridas de bike estão entre as principais. Pedalando, quem chega por lá consegue ter a real dimensão do seu território, testemunhando de muito perto seus cenários, seu clima e a riquíssima fauna e flora

 

* Andrei Polessi é fotógrafo e diretor de arte.

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