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Vastidão épica

29/01/2019

Por Zeca camargo*. Especial para a The Traveller

Há uma inesperada elegância naquele traje típico da Mongólia. Ligeiramente deslocado nas ruas de Ulan Bator, delicadamente em harmonia com as silhuetas das montanhas no campo, suas linhas curvas disfarçam o elaborado corte, que tem como primeira preocupação manter o corpo quente – já que o inverno é rigoroso. Mas como numa história clássica de forma que supera a função, olhamos para nossos impermeáveis de gomos que um dia achamos tão transados e nos sentimos imediatamente em desvantagem – no estilo e no conforto. Será que estamos mesmo preparados para conhecer a vastidão deste país? 

Na manhã em que parti para o Vale do Orkhon, o céu ameaçava um azul indecente. Se aquele era o tom que nos protegia nas primeiras horas do dia, imagina o que nos esperava pela tarde... Era essa promessa de belíssimos horizontes que afastava nossa resistência de encarar mais de seis horas de estrada para conhecer parte deste país tão fascinante. Se bem que a definição de estrada só vale mesmo para alguns quilômetros fora do perímetro da capital: em poucos minutos de viagem já estamos diante de um grande descampado onde a trilha é quase uma intuição – e não poucas vezes temos a impressão de sermos os primeiros a deixar uma marca de pneus por determinado trecho. À medida que avançamos para o interior, nos entregamos sem resistência a um cotidiano onde a bússola é obsoleta. Todas as direções parecem levar ao mesmo lugar: um infinito com uma vaga promessa de contato humano. O adjetivo “sublime” parece ter sido criado para estas paisagens da Mongólia. No entanto, você não se sente perdido, nem mesmo à deriva. ​

Foto: Stefan Cruysberghs

Numa terra em que todo mundo é nômade e ninguém é dono exclusivo de um pedaço de chão – tudo é de todos! – você aos poucos se sente parte daquilo tudo também, numa integração que faz com que a perspectiva de passar a noite em um “yurt” seja menos exótica do que parece. Não é. Em busca de uma experiência diferente, optei mais de uma vez por dormir numa dessas tendas tradicionais e descobri que elas estão longe de serem um exemplo de vedação – sobretudo com as rajadas de vento frio que entram por frestas imprevisíveis. Eu tinha o que achava que seria lenha e carvão suficientes para aquecer-me a noite toda. O fogareiro central parece perfeitamente instalado no centro da tenda para irradiar calor para todo o espaço, mas a certa altura da madrugada o fogo apaga e meu último recurso foi me inspirar nos trajes típicos e envelopar meu corpo com as mantas que cobrem a cama para terminar meu sono sossegado... 

O corpo pede descanso depois de um dia de tantas visões espetaculares. É como se você fizesse questão de fechar os olhos só para sonhar com o que viu enquanto eles estavam abertos. Com o adolescente sentado como uma esfinge no topo de uma tenda que acabava de ser montada no meio do nada. Ou a criança que brincava com o bezerro, a única companhia que não era adulta em um raio de quilômetros do ponto onde outra família havia se instalado há algumas semanas. Tinha também o chefe de família que chegava com um carneiro recém-sacrificado para nos oferecer um baquete, sua figura, um estranho alto-contraste diante sol que já vinha bem baixo. 

E sua mulher, que preparou o carneiro e tinha um rosto de beleza desconcertante: os olhos como rasgos na pele branca, a boca como o pé de um cálice sustentando um nariz forte, e as maçãs do rosto rosadas a ponto de entender por que elas um dia ganharam o nome dessa fruta. Tudo é tão vasto na Mongólia, que a presença humana sempre nos surpreende. É como se não esperássemos encontrar ninguém por lá, nada além de um passado de glórias – cortesia de um certo Genghis Khan. Sentimos um pouco do seu poder – era seu o maior império em extensão contínua da história – olhando para tudo isso, e avançamos por campos e desertos como se fôssemos também um pouco donos de tudo aquilo.

Foto: Stefan Cruysberghs

Lembro-me de uma manhã, ao lado de uma “estupa” e um “ovoo” – o primeiro, uma estrutura em forma de sino, que serve como uma urna funerária para as cinzas de alguém; e o segundo uma espécie de altar de pedras e fitas e farrapos que veneram as forças da natureza –, no topo de um ponto mais alto do Orkhon, não muito longe da cidade de Kharkhorin, eu procurava um ponto onde fixar meu olhar numa distância que parecia incomensurável. As pálpebras quase se fechavam para proteger do frio e você chegava a duvidar que existisse uma luva capaz de evitar que seus dedos congelassem naquelas condições. Aquela atmosfera toda era como um teste para seu poder de admiração – e mesmo com tantas adversidades, a magnitude de tudo aquilo era campeã.

A Mongólia é um daqueles destinos que te faz questionar: depois daqui, para onde? Um turista é sempre um conquistador e cada nova escala que alcançamos é como se cravássemos uma pequena bandeira particular no desembarque. Sempre temos a sensação de que há muito mais a descobrir, mas essa certeza fica ligeiramente ameaçada por aqui. Tive essa sensação em poucos lugares do nosso planeta – em Timbuktu, por exemplo, no Mali; numa dança tribal no meio do nada em Papua Nova Guiné; no extremo norte da Noruega sendo arrastado pela magia das auroras boreais; e neste lugar, engolido pelo celeste indecente do céu mongol. 

Foto: Stefan Cruysberghs

Andamos por ruínas ali – como as pedras que sobraram do palácio de Ordu Balik (séculos 8 e 9) ou as 72  estupas que circundam os muros do mosteiro de Erdene Zuu – e descobrimos que não somos apenas testemunhas de vestígios de um passado glorioso, mas convidados de  honra de um espetáculo que poucos hoje têm oportunidade de conhecer. E este é o segredo da Mongólia: não fazer estardalhaço da maravilha que é andar por este país, colecionar os sorrisos rosados dos seus habitantes, ter o sol por companheiro nas longas jornadas, lembrar de longe que uma serenidade budista permeia o cotidiano por aqui, e fazer com que a gente leve para casa não apenas selfies e souvenires, mas lembranças tão fortes que só vão mesmo se desdobrar anos depois que você voltou de lá. Completo exatos dez anos desta viagem que fiz pelas terras de Genghis Khan – e acho que só agora posso finalmente entender o impacto que aquela imensidão causou em mim.



* Zeca Camargo é jornalista, apresentador e palestrante. Foi correspondente em Nova York e trabalha na TV Globo há 20 anos. Já fez quatro voltas ao mundo e conhece 110 países. É autor do best-seller A Fantástica Volta ao Mundo, do e-book Eu Ando Pelo Mundo: Paris, e da biografia da cantora Elza Soares, lançada em 2018.

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