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Rota da Seda

18/10/2017
Praça Registan encantou Alexandre o Grande em 329 a.C
A cidade de Bukhara, no Uzbequistão

Sérgio Túlio Caldas. Especial para a The Traveller

O sol já descia avermelhado no horizonte ao longe, sem pressa, quando cruzei a muralha de Bukhara, uma das cidades mais lendárias da Ásia Central. Em um passado distante, pelo mesmo portal atravessaram caravanas de mercadores vindos do Oriente e do Ocidente, alguns dos maiores conquistadores da história, como um certo Alexandre, o Grande, no século 3 a.C., além do guerreiro Genghis Khan e do viajante Marco Polo, 1.500 anos mais tarde, no século 13. Tempos depois, vislumbrando as mesmas paisagens e até monumentos que atraíram a atenção daqueles aventureiros, eu percorria o árido território do Uzbequistão – uma das artérias mais suntuosas da milenar Rota da Seda, ao lado do Quirguistão, Cazaquistão e Turcomenistão, todos eles parte da extinta União Soviética. 

Explorar essa porção asiática equivale a mergulhar em uma das regiões mais fascinantes da Terra, onde a história antiga e a recente estão vivas – mas não só em museus e galerias de arte. E sim nas ruas, nos conjuntos arquitetônicos preservados e acessíveis, nas casas de chá, na música e dança vistas nas ruas, na rotina diária da gente local. A Ásia Central ficou oculta aos olhos do mundo ao longo do século 20 por obra da mão de ferro do comunismo soviético, que manteve suas portas fechadas a visitantes. Hoje é um território aberto, a ser desvendado aos poucos. Tão surpreendente quanto foi para os primeiros viajantes de tempos remotos.  
 
Desde o colapso da União Soviética, em 1991, suas ex-repúblicas passaram a adotar uma política de autoestima sem precedentes na história moderna asiática. O Uzbequistão, por exemplo, criou cooperativas de artesãos para recuperar a cultura local massacrada por décadas de repressão, restaurou monumentos históricos e adotou uma medida – talvez a mais importante delas: tornou o uzbeque a língua oficial, abrindo mão do idioma russo imposto pelo regime comunista. Com isso, restabeleceu sua conexão com antigas tradições e, melhor ainda, seu modelo foi seguido pelos países vizinhos. País que exerce maior influência na região, o Uzbequistão tem razões históricas para tal liderança.

Dono de um território do tamanho dos estados de São Paulo e do Paraná juntos, encontra-se no coração da Rota da Seda – a espetacular estrada que uniu os impérios da China (desde Xian) e de Roma, cruzando os atuais Afeganistão, Irã, Iraque, Turquia e Rússia, entre outros territórios, a partir do século 2 a.C. Através dos 7 mil quilômetros dessa via, circulava gente de incontáveis nações do Oriente e do Ocidente, misturando línguas, ideias, filosofias e raças.

Para comprovar as preciosas heranças que floresceram ao longo da antiga rota comercial, basta caminhar pelos centros medievais de Samarkand, Bukhara e Khiva. Por suas vielas e praças esbarra-se em alguns dos mais belos e audaciosos exemplos da arquitetura religiosa do mundo. São muitos, e majestosos, os prédios que um dia serviram de madrassas (escolas islâmicas), mausoléus e mesquitas, todos ornados com cúpulas e minaretes cobertos com azulejos finamente decorados. “Os ladrilhos formam a decoração mais notável da Ásia Central, resultado do encontro de artesãos turcos, gregos, persas, chineses, tibetanos e indianos”, me explica Makh Suma, historiadora da universidade de Bukhara. Os desenhos das peças têm formas abstratas, há trechos do Alcorão em árabe e estrelas em destaque – estas, aliás, encomendadas pelo rei astrônomo Ulughbek que, em 1420, identificou 200 estrelas desconhecidas na época. As ruas das cidades asiáticas centrais, tanto faz que estejam no Uzbequistão, Quirguistão, Cazaquistão ou Turcomenistão, são um convite para se perder, sem mapas ou guias, de tão atraentes.

Em Bukhara, resolvi me largar sem destino pelos becos sinuosos. Entre portões semiabertos, vi jardins floridos bem cuidados, homens orando em direção à Meca nos quintais de terra batida, músicos afinando instrumentos. Acabei me deparando com um impressionante minarete. Chamado Kalon – “grande”, traduzido do tadjique – o minarete domina os céus da cidade uzbeque há centenas de anos. Outro monumento existia no local desde 919, porém mais baixo. Mas em 1127, o impaciente rei Arslan Khan ordenou que ali fosse erguido o maior minarete jamais visto. Surgiu então a torre de 48 metros de altura. Um projeto ousadíssimo para 900 anos atrás. Para ter certeza que a obra era a mais alta, Khan ordenou seu arquiteto principal verificar se havia algo similar sobre a face da Terra. Dois anos após vagar por reinos distantes, ele retornou e garantiu ao rei: “não vi e muito menos tive notícia de que exista minarete que supere o de Bukhara. Se há algum, está no reino do céu”.   
Ao invadir a cidade, em 1219, durante a expansão de seu império desde a Mongólia até o leste europeu, Genghis Khan – num raro momento de reconhecimento de que estava diante de uma obra inigualável – determinou à sua horda de guerreiros que o minarete Kalon fosse poupado da destruição.

Continuei minha caminhada pela sucessão de labirintos apertados, que vão dar em outros emaranhados de ruelas, largas o bastante para caber uma bicicleta. O traçado das ruas não mudou nos últimos mil anos. Nessa atmosfera, entre um cumprimento e outro com pessoas simpáticas paradas diante das casas, eu imaginava mercadores e camelos, sacerdotes, filósofos, artistas e estudantes muçulmanos apertando-se pelas vielas quando ali era um cultuado polo cultural, religioso e de negócios da Ásia Central. Ao dobrar uma esquina dei de cara com a praça Lyab-I-Hauz, adornada com fontes, cercada por duas madrassas e a mesquita do século 17. O volume arquitetônico da cidade – assim como em Khiva – projeta-se imponente.

Edifícios islâmicos com cúpulas azul-turquesa; pontes de pedras sobre canais estreitos; minaretes erguendo-se em direção ao céu. Tudo arrebata. 

Encantadora também é Samarkand. Na cidade está instalada um admirável conjunto arquitetônico da Rota da Seda, o Registan. Construído no século XV, o complexo abriga uma enorme mesquita, bazares, madrassas, hospedarias e minaretes. “Tudo que ouvi sobre Samarkand é verdade. Exceto pelo fato de que ela é muito mais bonita”, disse o macedônio Alexandre, o Grande, no longínquo ano de 329 a.C, durante sua jornada de conquistas em direção ao Oriente. Muito depois, no final do século 13, o veneziano Marco Polo relatou que a cidade era das mais encantadoras que conhecera. O visitante de hoje não tem do que discordar.

Diferentemente do Uzbequistão, com seus 3 mil anos de história, o vizinho Quirguistão tem como grande atração a natureza intocada. Mais de 90% do país – território que acomodaria os estados do Ceará e do Rio Grande do Norte – é ocupado pelas montanhas da cordilheira Tian Shan, que se estende por 1.500 quilômetros desde a China. 
O Quirguistão, onde vivem 6 milhões de pessoas, tem atrativos espetaculares. Sua história está ligada às caravanas que durante quinze séculos serpentearam entre as cordilheiras; e a natureza preservada pode ser experimentada em parques nacionais, em trilhas nas montanhas, e nos lagos de beleza estonteante como o Issyk-Kul, cujas águas azuis se espalham por uma área de 170 quilômetros de comprimento e outros 70 de largura.

No verão, entre junho e agosto, pastores nômades costumam armar tendas em formato de cogumelo, as yurtas, nas pastagens às margens do lago. Ao sul do Issyk-Kul, e a 32 quilômetros da fronteira chinesa, há outro tesouro. A 3 mil metros de altitude encontra-se o Tash-Rabat, antiga edificação que serviu de hospedaria aos mercadores da Rota da Seda. A mesma estrada empoeirada que passa por Tash-Rabat me levou a um vilarejo de casas caiadas, Acha-Kaying, onde a arte da falcoaria ainda resiste, e mulheres se dedicam a bordar coloridos e intrincados tapetes conhecidos como shyrdak. Em uma das casas, fui convidado pela artesã Janyl Aliebekov, mestra em tecer o shyrdak, para conhecer seu trabalho. Com simplicidade, ela me estendeu um livro amarelado pelo tempo. Para minha surpresa tratava-se de uma publicação do Museu Britânico, de Londres, onde estão catalogadas peças de Janyl, produzidas naquele rincão da Ásia Central. Antes de se despedir, ela me diz: “Não sou eu quem faço estes tapetes, são as mãos de nossos ancestrais”. Surpreendente em cada pessoa, em cada vilarejo, ruelas sinuosas e paragens por onde andaram mercadores, heróis e imperadores, a Ásia Central é mais que uma viagem. É uma experiência.  

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