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Kanazawa e seus distritos de gueixas

18/04/2018
O mistério e a dificuldade de acesso a essas personagens fundamentais na cultura japonesa são ingredientes importantes no encanto que elas exercem
As gueixas estão presentes em regiões como Kazue Machi Chaya, o mais antigo e preservado distrito de gueixa, e em Higashi Chaya

Como as geiko e maiko tornaram-se personagens fundamentais na cultura do Japão.

Por Alexandre Eça. Especial para a The Traveller.

 

Não se decepcione se durante o dia, ao caminhar pelo maior distrito de gueixas de Kanazawa, você não vir uma única silhueta que lembre a imagem que nós ocidentais costumamos fazer desta que é a representação mais famosa do feminino tradicional japonês aos olhos do mundo. Realmente, não há muitas gueixas vagando pelas ruas no Japão contemporâneo. Mas fique com ouvidos atentos: em Higashi Chaya, Kazue Machi ou Nishi Chaya – os três distritos mais famosos de Kanazawa – é possível ouvir ao longe cantos afinados vindos de uma das inúmeras casas de chá que se espalham por suas ruas. São as geiko e maiko ensaiando para umas das várias apresentações que ocorrem semanalmente na cidade. O mistério e a dificuldade de acesso a essas personagens fundamentais na cultura japonesa são ingredientes importantes no encanto que elas exercem e têm o mesmo peso da sua personificação – lábios em acentuado vermelho, pele carregada de maquiagem branca,
postura elegante e, de uma certa forma, muito sedutora. 

As geiko (como as gueixas também são chamadas) são personagens que ganharam destaque na cultura japonesa a partir do século 17. Na verdade, séculos antes, as adolescentes odoriko (dançarinas) já eram artistas populares em casas da alta classe samurai, principalmente em Quioto, mesmo sem ter ainda formada sua porção cortesã pela qual as geiko ficariam conhecidas.

Quando a corte imperial se mudou para Quioto, no início do período Heian, a cultura japonesa começou a incorporar os traços que dariam origem à fixação da elite do país pela beleza e pelos mistérios das geiko e, a reboque, deram fama também às maiko, as suas jovens aprendizes. A história dá grande destaque à Kikuya. Ex-prostituta, ela abandonou o ofício para se tornar uma das geiko mais famosas do Japão na sua época. Exímia musicista e cantora, foi sucesso imediato por volta do ano 1750, fato que aguçaria o desejo de muitas mulheres em se tornarem grandes artistas. Artistas, sim. Durante um determinado período, com o domínio norte-americano após a Segunda Guerra Mundial, a imagem da gueixa esteve disfarçadamente atrelada a favores sexuais, muito por conta de uma sensualidade silenciosa, repleta de segredos bem guardados, que ainda hoje resiste, mas passa longe de qualquer viés mundano. O feminino da arte no Japão vai muito além. No Japão antigo, a formação de uma gueixa incorporara contornos artísticos, exigindo disciplina em aulas de canto, dança, idiomas e dialetos, além de muito treino de etiqueta e polidas regras sociais. 

Era o início de uma distinção cultural, estilística e simbólica associada aos costumes japoneses, que atravessaram fronteiras e continuam inabaláveis mesmo no nosso tempo. No início da década de 1920 contava-se cerca de 80 mil gueixas no Japão. Esse número chega a parecer irreal frente às estimadas 3 mil que existem hoje no país. As gueixas modernas resistem em áreas específicas de cidades como Quioto e Kanazawa, os chamados “distritos de gueixa”. Talvez por isso não seja tarefa fácil encontrá-las participando de atividades do dia a dia em outros lugares. Para ter um contato mais próximo com essas personagens, as casas de chá tradicionais são os melhores locais.

Em Kanazawa existem várias e são elas os principais palcos para essas damas desfilarem suas técnicas e mistérios, principalmente em regiões como Kazue Machi Chaya, o mais antigo e preservado distrito de gueixa, e em Higashi Chaya, o maior e mais famoso deles.

Esse show, onde temos a rara oportunidade de conversar com elas e descobrir um pouco mais dos seus mistérios, dá-se principalmente nas cerimônias do chá, influenciado por rituais herdados do Zen Budismo, em “performances” que podem durar até quatro horas. Um show que muitas vezes alinha encanto, grandes doses de cultura oriental e uma atmosfera absolutamente fascinante para nós, que chegamos do Ocidente

 

Onde ficar

Ryokan Asadaya
Os cenários e as acomodações dos ryokans podem variar, mas as inspirações de acolhimento são sempre as mesmas. Com mais de 140 anos de história, o tradicional ryokan está localizado na parte antiga de Kanazawa, próximo aos principais atrativos turísticos e ao lado do Omicho Market.

ANA Crowne Plaza
O hotel em estilo contemporâneo contrasta com a atmosfera tradicional que predomina em Kanazawa – cidade que foi poupada durante a Segunda Guerra Mundial. Está instalado no centro da cidade e conta com quatro restaurantes, sendo dois deles especializados na culinária japonesa.

 

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