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Dubai: muito além da ostentação

21/06/2019

Por Xavier Bartaburu*. Especial para a The Traveller 

Em Dubai, pode-se tomar o café da manhã no 122º andar do edifício mais alto do mundo, em um lendário transatlântico aposentado ou em uma estação de esqui no meio do deserto, mas também dentro de uma velha casa de mercadores, sentado sobre almofadas ao redor de um tapete que funciona como mesa, como nas tendas beduínas. Aqui não tem bufê: são 10 horas da manhã e a única coisa fumegante na sala é o café torrado com cardamomo e açafrão que repousa no bule prateado, à espera de ser servido ao pequeno grupo de visitantes com bolinhos fritos acompanhados de melado de tâmara e pasta de gergelim.

Duas vezes por semana, o Centro para o Entendimento Cultural Sheikh Mohammed oferece aos turistas um “café da manhã cultural” – também em sua versão almoço, jantar e chá da tarde – como forma de apresentar a cultura tradicional emiradense que prevalecia na cidade antes de Dubai ser Dubai, ou seja, antes da descoberta do petróleo e do frenesi megalômano dele decorrente. Até meados dos anos 1960, vale lembrar, Dubai era essencialmente uma terra de pescadores artesanais e pastores beduínos. Seus descendentes – atualmente apenas 15% da população; o resto são expatriados – são hoje orgulhosos proprietários de Ferraris e Lamborghinis, mas não abandonaram certas tradições.

Da mesma forma como, escondida entre torres de vidro que desafiam recordes, a velha Dubai insiste em existir. “Servir café é a nossa forma de acolher os de fora”, diz Fathayah Younis, dando início a uma minuciosa apresentação das tradições emiradenses, dos múltiplos usos da tâmara à razão pela qual os homens usam branco e as mulheres, preto (para refletir os raios solares e pela discrição, respectivamente). Ao desjejum, segue-se um percurso a pé pelo bairro de Al Fahidi, onde todas as casas são como as do centro cultural: construções de barro, gesso e rocha de coral erguidas no início do século 20 por mercadores de pérolas de origem persa, muitas dotadas de uma “torre de vento”, ancestral e engenhoso sistema de ar condicionado natural. Metade de Al Fahidi foi destruída nos anos 1980 para dar lugar a arranha-céus da nova Dubai, e a outra metade só ficou de pé porque o príncipe britânico Charles, em visita à cidade, rogou ao xeique que evitasse sua destruição. 

Bairro de Deira, em Dubai

Meia centena de casas foi reformada e elas hoje abrigam galerias de arte, museus e restaurantes como a Arabian Tea House, um dos raros lugares em Dubai para se provar a cozinha tradicional emiradense – raros porque, como explica Fathayah, “não vamos ao restaurante para comer a comida que fazemos em casa”. No menu, itens como machboos (arroz com especiarias acompanhado de frango, cordeiro ou frutos do mar) e aloona (guisado de frango ou cordeiro com vegetais); para sobremesa, bolo de tâmaras e sorvetes de leite de camela. 

Como todas as áreas mais antigas da cidade, Al Fahidi fica às margens do Dubai Creek, o canal de água salgada onde cem anos atrás trafegavam os barcos que abasteciam a Europa de pérolas. Essa foi a primeira fase áurea do emirado, encerrada nos anos 1930, com o surgimento do cultivo de ostras no Japão. Os barcos, contudo, perduraram e hoje ainda podem ser vistos ancorados ao longo do canal, de onde zarpam regularmente para o Irã à procura das especiarias vendidas nos souks de Dubai, exatamente como faziam um século atrás. Ou, para deleite dos turistas, para encantadores passeios com jantar a bordo. Esses barcos são chamados de dhows, mas há também as abras, barcas de madeira que fazem a travessia do Dubai Creek por apenas 1 dirrã (equivalente a 1 real). Você também pode pegar um táxi-drone (sim, eles já existem em Dubai), mas a forma mais rápida de ir de Al Fahidi à área de Deira, na margem oposta, continua sendo a bordo de uma dessas embarcações centenárias. Em poucos minutos você já estará dentro do Spice Souk, o antigo mercado das especiarias. Logo atrás fica o Gold Souk, o reluzente mercado do ouro, mas é o das especiarias que emana o cheiro, a cor e o caos que costumamos associar aos velhos bazares das Arábias – tudo aquilo que os shoppings de Dubai não são.

Centro para o Entendimento Cultural Sheikh Mohammed

É o melhor lugar para encontrar flores secas de romã para chá, incensos de sândalo ou de olíbano e goma-arábica natural, feita com a resina da acácia. Há uma loja especializada no melhor açafrão do mundo – 1 grama por 20 dirrãs (US$ 6), se for da Caxemira; 50 dirrãs (US$ 13), se for da Espanha –, e outra onde o perfume do oud é vendido a preços ainda mais exorbitantes: 500 dirrãs (US$ 135) por um frasco de 50 ml, por exemplo. Os emiradenses adoram essa fragrância produzida a partir da rara madeira de ágar, seja em forma de óleo, para o corpo, ou de incenso, para os ambientes fechados. Dubai inteira exala esse aroma ancestral.

A história desse perfume, e outras da velha Dubai, estão prestes a ser contadas ali perto, logo após a última curva que o Dubai Creek faz antes de misturar suas águas às do Golfo Pérsico. O bairro histórico de Al Shindagha, outro que por pouco escapou da devastação, vem passando por uma renovação que, além da instalação de hotéis e restaurantes nas velhas casas de barro, deve transformá-lo este ano no maior museu a céu aberto do mundo: um conjunto de vinte edificações reunidas na área em torno de um palácio que serviu de moradia para o xeique Saeed Al Maktoum (pai do atual) na primeira metade do século 20. Al Shindagha está se tornando a mais eloquente homenagem de Dubai a seu passado – e ao que persiste dele no presente. Para entender o que isso significa, basta sentar-se num fim de tarde no recém-criado calçadão beira-rio, vendo a noite cair sobre as antigas casas dos mercadores e sobre os barcos de madeira que deslizam pelo Dubai Creek. Ao longe, espetando o céu, o Burj Khalifa, maior edifício do mundo, parecerá nada mais que uma miragem.

Quando ir
Setembro a abril é o período ideal para visitar Dubai. Do início do outono à metade da primavera as temperaturas na cidade são amenas, sem o calor excessivo do verão nos Emirados
Árabes. Esse é o período, também, em que Dubai se mostra mais vibrante. 

Onde Ficar
Four Seasons Resort Dubai At Jumeirah Beach 
O Four Seasons Resort Dubai é quase um santuário de calma e sofisticação em Jumeirah Beach. Com dez restaurantes e lounges no complexo, a excelência da gastronomia é garantida. Não deixe de conhecer: o spa do resort foi inspirado nos contrastes da região – o mar e o deserto, o antigo e o futurístico. Nele estão dez salas espaçosas, onde tratamentos com ingredientes especiais e água termal tornam tudo ainda mais especial.

The Dubai Palace Downtown
A localização do hotel já é especial: em Downtown Dubai, próximo aos icônicos Dubai Mall e Souk Al Bahar – dois dos melhores locais de compras da cidade. O Oriente Médio é a inspiração dos tratamentos faciais e corporais do spa, que alinhado à piscina ao ar livre, cercada por palmeiras, cria uma experiência de relaxamento impecável. Já a gastronomia é um festival de sabores internacionais – da culinária argentina, passando pela autêntica cozinha tailandesa, aos deliciosos pratos árabes.

 

* Xavier Bartaburu é jornalista e fotógrafo com mais de 20 livros publicados. Viajou a Dubai especialmente para produzir a matéria para nossa revista The Traveller. 

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