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Uma expedição pela Antártica

05/11/2018
Os pinguins são personagens em qualquer viagem à Antártica
No cruzeiro, o cardápio de atividades externas é intenso e quase não cabe nas 24 horas do dia.

 

Por Eduardo Vessoni*. Especial para a The Traveller

 

Essa poderia ser mais uma daquelas viagens a bordo de barcos imponentes com serviços exclusivos para passageiros aventureiros. Poderia, mas não é. As viagens à Antártica não contam com as mesmas formalidades dos cruzeiros marítimos, não têm festas de gala com o comandante e muito menos gastronomia assinada por chefs estrelados. Visitar o Continente Branco é como desembarcar em um mundo diferente, que se abre para viajantes que buscam aquilo que poucos já vivenciaram. Pinguins seguem alheios ao nosso desembarque e resquícios de civilização aparecem quando os telhados coloridos de bases científicas despontam no horizonte branco. Não deixa de ser emocionante, até a neve densa parece assumir outras texturas naquelas terras virgens.

Atualmente, a maioria das expedições antárticas parte do porto do Ushuaia, no extremo sul da Patagônia argentina. São roteiros circulares, com duração de 10 a 23 dias, passando pelas Malvinas, o polêmico pedaço de terra britânico que a Argentina ainda solicita a devolução; pela Geórgia do Sul, um conjunto de ilhas ultramarinas, sob administração do Reino Unido e que guarda o túmulo de Shackleton; e pela Ilha Elefante, nas Shetland do Sul, a 120 quilômetros do destino final – ou seria do começo de tudo? Apesar das visitas pelo caminho, todos parecem só ter olhos para a parada mais esperada da viagem.

 

A Península Antártica é a versão mais turística da região, um braço que se estende ao norte do continente e que conta com melhores condições climáticas. Localizada a mil quilômetros da Terra do Fogo, aproximadamente, a região é o pedaço de terra mais ao norte da Antártica e mais próxima da América do Sul. É ali que está a maior concentração de animais e onde as temperaturas beiram zero grau. Ainda assim, não se esqueça que você está no continente mais frio e ventoso do mundo, o que leva a ensação térmica para níveis negativos. O cardápio de atividades externas é intenso e quase não cabe nas 24 horas do dia. O verão é a temporada mais exibida por ali, quando os animais estão por todos os lados e o sol mal se põe, quicando no horizonte, já de madrugada, para logo voltar a subir, proporcionando a época do ano com mais incidência de luz natural. É como ter dia e noite, numa mesma hora. 

Entre icebergs de dimensões variadas e bichos que repousam sobre placas de gelo, pequenos barcos motorizados singram as águas calmas, em direção à terra firme, onde começam as principais atividades fora dos navios. Tem trekking sobre gelo, passeios em caiaques, observação de grupos de baleias (essa sem hora marcada para acontecer) e até mergulho com roupas especiais para viajantes com preparação prévia. Mas, sem dúvida, o melhor programa de toda a viagem são os desembarques em colônias de pinguins que, aos montes, rasgam o silêncio profundo da Antártica e, sem cerimônia, caminham entre os viajantes recém-chegados.

Aliás, cada desembarque é um processo lento e cuidadoso, que inclui a descida prévia da tripulação para averiguação das condições em terra e procedimentos obrigatórios como a limpeza de roupa e equipamentos, e a lavagem de calçados, antes de pisarmos naquele bioma isolado e frágil. Um dos endereços mais conhecidos é a Ilha Goudier, pequeno pedaço de terra espremido entre um emaranhado de outras ilhas da costa oeste da Península, no arquipélago Palmer. É ali que fica Port Lockroy, antiga estação baleeira e de pesquisa que abriga um pequeno museu, loja de souvenirs e até uma agência dos correios que, vejam só, envia postais para mais de cem países. A principal atração local, onde fica a primeira base britânica a ser estabelecida em solo antártico, em 1944, é a colônia de pinguins-gentoo que circundam a casinha de madeira marrom e vermelha que se destaca entre montanhas brancas. Para eles não existe distância mínima entre bichos e humanos. Não é raro ser surpreendido com animais a poucos centímetros, cruzando sem pressa nosso caminho.

Em terras polares, a ideia de paraíso pode mudar, sobretudo quando a parada seguinte é no Paradise Harbour, conhecido também como Paradise Bay. Endereço da Base Brown, estação científica de verão da Argentina que se vê ao longe com suas paredes avermelhadas, a baía é um mar de blocos de gelos e icebergs que convidam nossa mente a viajar com seus desenhos abstratos, refletidos na água.

 

Para reforçar a fama de continente mais inteligente do planeta, devido à concentração de cientistas do mundo todo, a programação nos roteiros antárticos proporciona encontros a bordo com grandes especialistas em vida marinha, geologia, história e fotografia. Quando achamos que não há mais Antártica a ser vista, seguimos para a vizinha Shetland do Sul, arquipélago paralelo ao extremo norte da Península, a 120 quilômetros dali, onde ficam outras duas paragens surreais naquelas terras tão distantes.

A Ilha Half Moon abriga extensas praias com colônias infinitas de pinguins-de-barbicha; e a Ilha Deception, uma cratera de vulcão colapsada em forma de ferradura e acessada por uma fenda de apenas 150 metros de largura. A inesquecível experiência reúne em um mesmo lugar a chance de navegar e de caminhar sobre placas congeladas no interior de um vulcão ativo. Considerada o destino de viajantes mais experientes, que já passaram por todos os continentes, a Antártica vem se tornando a escolha de jovens aventureiros que já não se contentam com o turismo fácil dos lugares mais populares, expostos com frequência em seus feeds nas redes sociais.
E apesar de alguns navios contarem com serviços de mordomo, spa, academia e butiques para os dias mais longos de navegação, o que a gente quer mesmo é ver a Antártica passar pelos nossos olhos e senti-la com nossos pés.

 

Quando ir
outubro a março

 

Os cruzeiros para explorar a Antártica

Silversea
Os cruzeiros de expedição da Silversea pela Antártica são realizados com os navios Silver Explorer e Silver Cloud Expedition, que redefiniu o conceito de viagens de expedição com conforto, diversidade de restaurantes. Com durações que variam de 11 a 22 dias, as expedições são oportunidade para visitar Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul, Península Antártica e a Ilha Elefante. Durante os cruzeiros são feitos desembarques em barcos Zodiac, passeios a lugares raramente visitados e observação da fauna selvagem.


Quark Expeditions
Os navios da Quark Expeditions são projetados especialmente para navegar em altas latitudes, e as equipes que lideram as expedições incluem cientistas, biólogos marinhos e fotógrafos, todos com profundo espírito aventureiro, sem deixar de lado as responsabilidades ambientais. As expedições para o “sétimo continente” têm durações que variam de 8 a 23 dias, dependendo do roteiro escolhido. 

 

* Eduardo Vessoni - jornalista e fotógrafo de viagens há quase dez anos. Já esteve em todos os continentes, mas sempre desembarca com um olhar curioso sobre o desconhecido.

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