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Street art - das ruas aos museus

07/08/2017
Obra d´OsGemeos (Vancouver Biennale/Divulgação)

A arte de rua nasceu nos anos 60 junto com as manifestações dos jovens nos muros das grandes cidades, mas tomou um rumo diferente e hoje está até dentro dos museus e das galerias.

Por Ricardo Westin. Especial para a Teresa Perez. 

 

É o desenho em tinta preta de uma mulher despencando no vazio agarrada a um carrinho de compras. A imagem pode provocar no observador um riso rápido ou então deixá-lo pensativo. Em certos casos, ela chega a ser desconcertante, ofensiva até. A reação só depende do estado de espírito de quem contempla. Isso, enfim, é arte – arte de rua, para ser mais específico. Trata-se de grafites ou colagens que brotam nas cidades onde menos se espera, quebrando a monotonia do concreto, chamando a atenção para um ponto da paisagem urbana que passava desapercebido.

Os artistas buscam compartilhar suas emoções com o maior número possível de pessoas, de forma democrática, quase sempre sem cobrar nada pela criação. O autor do desenho da mulher caindo com as compras é Banksy, o célebre artista britânico que há anos e sem aviso prévio espalha pelo mundo suas obras impregnadas de crítica política e social. A imagem escolhida para aquele paredão não é aleatória. Ela fica a poucos passos da New Bond Street, nada menos do que a rua de compras mais luxuosa da Europa, no bairro londrino de Mayfair. Em inglês, a expressão para se referir às compras compulsivas é shop till you drop – comprar até cair.

Até bem pouco tempo atrás, torcia-se o nariz para a arte de rua. Ela era associada a casas abandonadas, praças degradadas, bairros perigosos. De fato, sua origem está na onda de vandalismo da Nova York dos anos 60 e 70, que deixou prédios e vagões do metrô desfigurados pela pichação. Logo, entretanto, notou-se que em meio àquela profusão de rabiscos e desenhos clandestinos que poluíam a cidade sobressaíam algumas imagens dotadas de significado e sensibilidade. Definitivamente não podiam ser atribuídas a delinquentes. Na entrada dos anos 80, os nova-iorquinos já conseguiam reconhecer os desenhos humanos quase infantis de Jean-Michel Basquiat e os personagens em movimento de Keith Haring. Com os dois, a arte de rua finalmente deixou de ser caso de polícia. E não só isso. Passou a ser admirada e se ramificou pelo planeta. Os grafites e as colagens hoje dão um novo significado às ruínas do Muro de Berlim, às ruas estreitas de Paris, às vias expressas de Bogotá, às fachadas dos bares de Buenos Aires, aos muros de São Paulo, ao porto do Rio de Janeiro. Outras obras de Banksy – e não são poucas – estão espalhadas por Londres e também por Nova York. É como se as grandes cidades do mundo brindassem moradores e visitantes com museus ao ar livre – e acervos em constante renovação. Em alguns lugares, há passeios guiados pelos murais.

Eduardo Kobra, por exemplo, já compôs murais em Amsterdã, Roma e Moscou, para citar apenas algumas cidades. Os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, mais conhecidos como OSGEMEOS, usaram paredões de Boston, Lisboa e Havana como tela em branco. Os três artistas são paulistanos, o que explica o fato de São Paulo ser especialmente fecunda em criações deles. Entre os nomes que ganharam destaque na cena internacional nos últimos anos, estão o neozelandês Owen Dippie, o chileno Dasic Fernández e os americanos Bumblebee e James Bullough. Em 2004, o bairro barra-pesada de Wynwood, em Miami, apostou no grafite para se reabilitar e se transformou numa das áreas mais badaladas da cidade. Em 2008, a imagem mais conhecida do candidato Barack Obama à presidência dos Estados Unidos foi o pôster em vermelho, azul e bege criado em estêncil pelo grafiteiro americano Shepard Fairey. Nos leilões, obras do tipo são arrematadas por pequenas fortunas.

Ainda que seja intrinsecamente externa, a arte de rua conseguiu migrar para o interior de galerias e museus. No MoMA, em Nova York, Keith Haring convive lado a lado com Matisse. No Victoria and Albert Museum, em Londres, as tintas de Banksy dividem o interesse dos visitantes com as de Botticelli. No fim de setembro, o Barbican Centre, também na capital britânica, abrirá uma exposição de quatro meses dedicada exclusivamente a Basquiat. Hoje custa crer que no passado a arte de rua era tema das páginas policiais.

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